As outras riquezas naturais da Venezuela que são 'críticas' para os EUA

  • 15/02/2026
(Foto: Reprodução)
O subsolo venezuelano abriga vastas jazidas de outros recursos minerais, além de petróleo e gás Johnny Parra/AFP via Getty Images Venezuela e petróleo são termos quase sinônimos. Por mais de um século, o país sul-americano foi um dos maiores produtores de petróleo do mundo. E, no fim da década passada, foi confirmado o que até então só se suspeitava: o país possui a maior reserva de petróleo comprovada do planeta. O solo venezuelano abriga cerca de 300 bilhões de barris de petróleo, principalmente extra pesado. O volume supera os 260 bilhões da Arábia Saudita, o principal exportador do combustível do mundo e, por décadas, seu maior produtor. "Aqui fica a maior reserva de petróleo deste planeta. Aqui, na Venezuela, temos petróleo para mais de 100 anos", declarava insistentemente o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez (1954-2013). Mas não existe só petróleo nas entranhas do solo venezuelano. Elas também abrigam grandes jazidas de diversos metais e outros minerais. Veja os vídeos que estão em alta no g1 Durante anos, Chávez e seu sucessor, Nicolás Maduro, atribuíram suas más relações com os Estados Unidos ao interesse de Washington de se apropriar desses recursos. "Qual é o objetivo do atual governo dos Estados Unidos? Eles já declararam: apoderar-se de todo o petróleo da Venezuela, do ouro, das terras raras, das riquezas da Venezuela", afirmou Maduro em entrevista publicada no dia 1° de janeiro — dois dias antes da inédita operação militar ordenada pelo presidente americano, Donald Trump, que resultou na captura do então governante e da sua esposa, Cilia Flores. As primeiras palavras de Trump após o ocorrido pareciam confirmar as suspeitas de Maduro. "O que precisamos [das autoridades interinas venezuelanas] é de acesso total", declarou Trump. "Total acesso ao petróleo e a outras coisas do país que nos permitam reconstruí-lo." Para os analistas consultados pela BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC) e para o próprio governo interino da Venezuela, estas "outras coisas" não especificadas pelo presidente dos Estados Unidos aparentemente incluem as vastas jazidas minerais do país. Donald Trump declarou que deseja "total acesso" às reservas de petróleo da Venezuela, que são as maiores do mundo, segundo organismos como a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) Pedro Mattey/AFP via Getty Images Amplo estoque "Na Venezuela, o petróleo não é o único recurso mineral importante. Existem também outros e uma minoria deles começou a ser explorada", explica à BBC o geólogo venezuelano Gustavo Coronel, um dos diretores fundadores da empresa estatal Petróleos de Venezuela (Pdvsa). Mas quais são esses minerais? "Ferro, bauxita e ouro", detalha ele. Já o sociólogo Emiliano Terán Mantovani, da Universidade Central da Venezuela (UCV), acrescenta à lista "diamantes, coltan, níquel, cobre e carvão". Terán Mantovani é um pesquisador especializado nos impactos para a América Latina do chamado "extrativismo", a exploração e exportação de grandes volumes de recursos naturais com pouco processamento. As autoridades venezuelanas garantem que existem no país pelo menos 50 minerais e calculam que cerca de 15 deles podem ser explorados comercialmente. O Centro Internacional de Investimentos Produtivos (CIIP), um organismo subordinado à vice-presidência da Venezuela, indica que o país detém a oitava maior reserva mundial de ferro, com 14,721 bilhões de toneladas do metal. Além disso, existem na Venezuela mais de 321 milhões de toneladas de bauxita, a matéria-prima usada para a obtenção de alumínio metálico, que é empregado na fabricação de aviões, automóveis e muitos outros produtos. Em relação ao ouro, o CIIP assegura que o país abriga entre 2,2 mil e 8 mil toneladas do metal. Este volume transformaria a Venezuela na segunda maior reserva mundial de ouro. Mas os especialistas consultados pela BBC News Mundo alertam que estes dados não foram verificados de forma independente. "Ninguém sabe, nem mesmo o governo, qual o volume das reservas comprovadas de ouro, já que sua exploração é muito desordenada e não houve mais estudos a respeito", explica Coronel. A maior parte das jazidas desses minerais está localizada no sudeste do país, particularmente na região de Guayana, formada pelos Estados de Bolívar, Amazonas e Delta Amacuro. Algumas delas são exploradas há várias décadas. Em outras partes da Venezuela, como a península de La Guajira, no Estado de Zulia (na fronteira com a Colômbia, a oeste), existem depósitos de carvão. E o cobre está espalhado pelo centro-norte e nordeste do país. O mistério das terras raras Nos últimos anos, as autoridades venezuelanas garantiram que existem no país depósitos das chamadas terras raras, os 17 elementos químicos atualmente em alta demanda para a fabricação de baterias, telas, ímãs e outros equipamentos tecnológicos. Os especialistas concordam com esta avaliação. "No ano de 1971, foi realizado um levantamento aeromagnético, que detectou a existência de terras raras em Cerro Impacto, entre os Estados de Bolívar e Amazonas", segundo Coronel. O tório é um elemento altamente radioativo e muito utilizado na indústria nuclear. Ele foi identificado ao lado do nióbio e do tântalo, segundo um relatório do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS, na sigla em inglês), publicado em 1990. Mas o organismo americano não inclui a Venezuela entre os depósitos de terras raras por falta de dados. O motivo é que, mesmo décadas depois das primeiras descobertas, o volume destas jazidas ainda é desconhecido. "Esses minerais estão em uma zona de difícil acesso, com muita vegetação, e estão cobertos por uma enorme quantidade de sedimentos", explica Coronel. "Por isso, é necessário escavar e perfurar, o que afetaria gravemente o meio ambiente." As autoridades venezuelanas afirmam que o país detém a oitava maior reserva de ferro do planeta, um mineral fundamental para setores como a indústria e a construção civil Gamma-Rapho via Getty Images Mas as autoridades afirmam que existem grandes depósitos destes elementos, bem como de coltan, que é muito utilizado pela indústria de tecnologia civil e militar. O coltan é uma mistura de columbita e tantalita, das quais são extraídos, respectivamente, o nióbio e o tântalo. Ambos são extensamente empregados na fabricação de componentes eletrônicos. "As reservas de coltan na Venezuela, em uma avaliação muito preliminar, podem se aproximar de US$ 100 bilhões" (cerca de R$ 520 bilhões), afirmou Chávez em um discurso no parlamento venezuelano, em 2010. Mas a primeira exportação do chamado "ouro azul" só ocorreu oito anos depois. Em 2018, o então ministro do Desenvolvimento Mineral, Víctor Cano, anunciou a venda de cinco toneladas de coltan para a Itália, pelo valor de US$ 330 mil (cerca de R$ 1,7 milhão). Desde então, não houve registro de novos embarques formais do mineral para o exterior. Mas existem relatos de organizações ambientalistas e da imprensa local indicando um contrabando cada vez maior de coltan venezuelano. Plano B A tradição venezuelana da mineração remonta aos tempos da colonização espanhola. Mas ela nunca foi um motor da economia do país, apesar do seu potencial. Isso mudou a partir da segunda metade da década passada. "Com a redução da produção de petróleo, Maduro estabeleceu em 2016 o Arco Mineiro do Orinoco, para explorar os minerais da região", recorda Terán, "particularmente do ouro, que assumiu protagonismo graças aos seus elevados preços internacionais." O Arco Mineiro é uma vasta região de mais de 110 mil km², o que equivale a 12% do território da Venezuela. Ele está localizado ao norte dos Estados venezuelanos do Amazonas, Bolívar e no sul de Delta Amacuro, perto do Cinturão Petrolífero do Orinoco, onde fica a maior parte das reservas de petróleo da Venezuela. O Arco foi dividido em quatro blocos, conforme a preponderância das jazidas minerais que eles contêm. "Esperava-se que cerca de 150 empresas participassem da exploração do Arco", explica o especialista. "Mas a falta de segurança jurídica, o agravamento da crise política e as sanções internacionais prejudicaram os planos." O setor de mineração também foi objeto de desapropriações durante o governo de Hugo Chávez. Algumas destas disputas continuam a ser travadas em tribunais internacionais. [bbc] As outras riquezas da Venezuela, além do petróleo BBC "A partir dali, o governo recorreu à pequena mineração para extrair o ouro, uma atividade que nem sempre respeita o meio ambiente, nem as comunidades indígenas", explica Terán. E, como se tudo isso já não fosse suficiente, o especialista denuncia que "o crime organizado se expandiu na região, graças à sua associação a setores militares que enriqueceram com a mineração". As autoridades reconheceram irregularidades na região. "Eles levam o ouro, o coltan, os diamantes", admitiu Maduro, em janeiro de 2018. Mas os funcionários afirmam que estes são casos isolados e que seus responsáveis são perseguidos. O impulso à mineração, forçado pelo colapso do petróleo, se desenvolveu sem considerar o meio ambiente, tendo já devastado extensas áreas no sul da Venezuela Yuri Cortez/AFP via Getty Images Apesar dos obstáculos, a exploração do ouro aumentou de forma constante nos últimos anos, atingindo cifras sem precedentes. São 40 a 50 toneladas por ano, o que representa US$ 2,7 bilhões a US$ 3,3 bilhões (cerca de R$ 14 a 17 bilhões), segundo fontes nacionais e internacionais. Mas apenas uma pequena parcela destes valores chega aos cofres públicos do país. "Estariam ingressando no Banco Central da Venezuela apenas 8% do ouro explorado, a título de royalties, e 6% pela autorização de exportação, enquanto as organizações criminosas ficariam com cerca de 20% e as alianças estratégicas vinculadas à elite política, com 66%", denunciou a organização Transparência Venezuela, em um relatório publicado em 2024. As autoridades venezuelanas têm sido muito pouco claras em relação à produção de ouro e não informam os valores recebidos pelo BCV. Em fevereiro, a presidente interina Delcy Rodríguez afirmou que o ouro "mantém o serviço exterior" (embaixadas e consulados) e financia "os esportistas venezuelanos" que comparecem a competições internacionais. Paralelamente, ela revelou que foram extraídas 9,5 toneladas do metal em 2025. [bbc] A exportação de ouro passou a ser uma importante fonte de receita para o Estado venezuelano, frente à queda da extração de petróleo Juan Barreto/AFP via Getty Images As minas estão na mira Além do pedido de "total acesso" por parte de Trump, outras autoridades americanas deixaram claro o interesse de Washington pelos recursos naturais venezuelanos. "Eles têm ferro e todos os minerais críticos, têm um grande histórico de mineração que se deteriorou, mas o presidente Trump irá arrumar e recuperá-lo", anunciou o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, horas depois da captura de Maduro e Flores. Acrescente-se a todo o acima que, em novembro de 2025, a bauxita, o níquel, o cobre e o carvão, também existente na Venezuela, foram incorporados à lista de minerais críticos fundamentais para a economia americana, elaborada pelo USGS. "Os minerais críticos sustentam indústrias que valem trilhões de dólares e a dependência da importação coloca setores fundamentais em risco", alerta o diretor do USGS, Ned Mamula. Especialistas dão como certo que o interesse de Washington não se limitará ao petróleo venezuelano. Afinal, o governo dos Estados Unidos já deixou claro que pretende diversificar sua cadeia de matérias-primas. "O ouro faz parte do interesse americano nesta nova situação", destaca Coronel. "Sabe-se que o presidente Trump detém especial predileção pelo ouro, como mostra a decoração do seu escritório na Casa Branca." Mas o geólogo expressou preocupação com a forma de exploração de alguns dos minerais. "Um governo democrático certamente deixaria intacta a região de Cerro Impacto, já que existe o risco de um desastre ecológico", explica Coronel. "Mas receio que, agora, alguns países que precisam desesperadamente desses minerais poderiam pressionar para abrir a zona para exportação. E um deles, obviamente, são os Estados Unidos." Terán também expressou sua apreensão com os desejos de Washington. "Não é exagero afirmar que, aqui, não há nenhuma consideração ambiental, nem preocupação com a democracia ou os direitos humanos", alerta ele. "O que estamos observando são sinais de acordos muito subordinados, que colocam em risco a ideia de soberania que tivemos." Mas empresas especializadas, como a GlobalData Energy, expressaram suas dúvidas sobre a capacidade da Venezuela de se transformar em um fornecedor confiável de minerais para os Estados Unidos a curto prazo. Isso se deve à carência de infraestrutura moderna no país, de estudos confiáveis sobre suas reservas e, sobretudo, de um marco jurídico estável, segundo um relatório publicado recentemente. Os irmãos Delcy e Jorge Rodríguez parecem dispostos a reverter as políticas de Hugo Chávez, que restringiram a atuação do capital privado em relação ao petróleo e à mineração venezuelana Jesus Vargas/Getty Images As autoridades venezuelanas já estão abordando este último aspecto. Elas se mostraram dispostas a abrir as jazidas minerais ao investimento privado. "Essas imensas reservas de petróleo precisam ser extraídas para serem transformadas em escolas e hospitais [...]. Debaixo da terra, elas não servem para ninguém", declarou o presidente da Assembleia Nacional venezuelana, Jorge Rodríguez — irmão da presidente em exercício, Delcy Rodríguez. Jorge Rodríguez fez a declaração para defender a rápida reforma da Lei de Hidrocarbonetos, que reverte parte do modelo estatizador imposto pelo chavismo nas últimas duas décadas. E, entre os 29 textos legais que o governo pretende modificar, também se inclui a lei que regulamenta a mineração.

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2026/02/15/as-outras-riquezas-naturais-da-venezuela-que-sao-criticas-para-os-eua.ghtml


#Compartilhe

Aplicativos


Locutor no Ar

Peça Sua Música

Top 5

top1
1. Lembrar De Nós Assim

Banda Raneychas

top2
2. DOIDO DOIDO

Guilherme Silva

top3
3. SÓ LIGUEI PRA DIZER QUE TE AMO

ALINE SILVA

top4
4. Por Tua Causa

Rasta Chinela

top5
5. Ô Garçom

Klessinha

Anunciantes