'Bet da guerra': apostas em ataque dos EUA ao Irã levantam suspeitas de informação privilegiada
10/03/2026
(Foto: Reprodução) O presidente dos EUA, Donald Trump, discursa durante uma coletiva de imprensa no Trump National Doral Miami
REUTERS/Kevin Lamarque
Deputados dos Estados Unidos pediram uma investigação para apurar se houve vazamento de informação privilegiada por parte do Pentágono sobre o ataque que matou o ex-líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei.
✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp
➡️ Khamenei foi morto em ataques aéreos dos EUA e de Israel na capital iraniana, Teerã, em 28 de fevereiro. A polêmica se instalou após a Bubblemaps, empresa de análise de mercados de blockchain, ter afirmado que seis contas obtiveram um lucro de US$ 1,2 milhão (cerca de R$ 6,3 milhões) com apostas na Polymarket feitas nas horas anteriores aos ataques.
A plataforma de apostas Kalshi também mantinha uma aposta sobre se Ali Khamenei deixaria o pode na ocasião.
Segundo a agência de notícias Reuters, apostas ligadas ao ataque dos EUA ao Irã movimentaram US$ 529 milhões (cerca de R$ 2,7 bilhões) no Polymarket. Na mesma plataforma, usuários também apostarm outros US$ 150 milhões (cerca de R$ 785 milhões) na remoção de Khamenei do cargo de líder supremo iraniano.
Veja os vídeos que estão em alta no g1
Já nesta terça, investidores fizeram apostas nesta terça-feira (10) de que Trump encerrará o conflito em breve. Um dos indícios para o movimento seria o aumento do preço do petróleo, o que ameaça o bem-estar mercado global.
A nova leva de apostas foi feita em meio a falas do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a duração da guerra no Oriente Médio.
“É insano que isso seja legal”, disse na rede X o senador democrata Chris Murphy, em resposta à publicação da Bubblemaps. Murphy afirmou também, sem apresentar provas, que pessoas próximas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estavam lucrando com o conflito. "Vou apresentar uma legislação o mais rápido possível para proibir isso", afirmou.
O deputado democrata da Califórnia Mike Levin também chamou atenção nas redes sociais para uma aposta feita na Polymarket pouco antes dos ataques ao Irã. “Mercados de previsão não podem ser um veículo para lucrar com conhecimento antecipado de ações militares. Precisamos de respostas, transparência e supervisão”, escreveu.
Antes mesmo da ofensiva no Irã, em fevereiro, senadores democratas já haviam manifestado a preocupação de que mercados de previsão violavam regras dos EUA e criavam incentivos para estimular conflitos e divulgar informações sigilosas. após um apostador misterioso obter cerca de US$ 410 mil (cerca de R$ 2,11 milhões) de lucro apostando na deposição do então presidente venezuelano, Nicolás Maduro.
Questionado pela Reuters sobre a fala de Murphy, o porta-voz da Casa Branca, Davis Ingle, disse que "o único interesse especial que orienta a tomada de decisões do governo Trump é o melhor interesse do povo americano".
Procurada pela Reuters, Polymarket não se manifestou, mas a plataforma argumenta que mercados de previsão utilizam a "sabedoria coletiva" para criar previsões precisas e imparciais.
Já a Kalshi afirmou que não permite apostas diretamente ligadas à morte de autoridades. O diretor-executivo da plataforma, Tarek Mansour, disse que a empresa não lucrou com previsões sobre Khamenei e que devolveu taxas pagas por usuários para fazer a aposta.
Questões legais
👉 Os mercados de previsão tiveram um crescimento explosivo em popularidade desde a eleição presidencial dos EUA em 2024, quando suas probabilidades em tempo real se mostraram mais precisas do que pesquisas eleitorais ao prever a vitória de Donald Trump.
Essas plataformas oferecem apostas simples — em que o usuário escolhe apenas “sim ou não” — que permitem apostar em diferentes tipos de acontecimentos no mundo, desde esportes até política e economia.
A legislação dos EUA proíbe apostas contrárias ao interesse público, o que pode ser o caso de guerras ou um assassinato. Apostar com base em informações não públicas pode ser ilegal, dependendo do mercado, da natureza da informação e de quem a utiliza.
No entanto, as plataformas de apostas cresceram em uma zona cinzenta das leis regulatórias nos Estados Unidos. A Comissão de Mercados Futuros de Commodities dos EUA, que supervisiona a maior parte da negociação de derivativos listados, perdeu uma batalha judicial ao tentar proibir apostas sobre o resultado das eleições dos EUA.
Desde então, a agência afirma que acredita que os mercados de previsão estão dentro de sua competência e planeja criar uma estrutura federal para supervisioná-los.
No ano passado, os mercados de previsão registraram US$ 47 bilhões (cerca de R$ 243 bilhões) em volume global de negociações, segundo analistas da corretora Clear Street, atraindo a atenção de empresas tradicionais de Wall Street interessadas em participar desse mercado.