Como é a cidade brasileira que recebe milhares de venezuelanos em meio à crise no país vizinho
05/01/2026
(Foto: Reprodução) Impacto da captura de Maduro pelo governo Trump na fronteira do Brasil com a Venezuela
Pacaraima, no extremo Norte de Roraima, a cidade brasileira que faz fronteira direta com a Venezuela, é o primeiro território nacional a sentir os reflexos da crise política, econômica e humanitária venezuelana. Desde 2015, foram mais de 1,1 milhão de migrantes que entraram no Brasil pela cidade.
➡️ Entenda: Os Estados Unidos lançaram no sábado (3) um ataque contra a Venezuela com explosões em Caracas e nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira. O presidente venezuelano Nicolás Maduro e sua esposa foram capturados e levados aos EUA.
Fronteira do Brasil com a Venezuela
Caíque Rodrigues/g1 RR
Com pouco mais de 19 mil habitantes, segundo estimativas do Censo 2022, o município está a cerca de 215 quilômetros de Boa Vista e é ligado ao restante do Brasil pela BR-174.
Do outro lado da fronteira fica a cidade venezuelana de Santa Elena de Uairén. A circulação entre os dois países sempre fez parte da dinâmica local, mas essa relação mudou profundamente a partir da segunda metade da década passada, quando estourou a crise na Venezuela.
Só em 2025, a cidade recebeu mais de 96 mil novos migrantes venezuelanos introduzidos na rotina do município. Em outubro de 2025, foram mais de 11 mil venezuelanos entrando por Pacaraima. Os dados são do Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra).
Infográfico - Fronteira do Brasil com a Venezuela
Arte/g1
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A Prefeitura de Pacaraima informou que a cidade segue em tranquilidade, com comércio funcionando normalmente e sem alterações na rotina. A gestão municipal afirmou que "acompanha os desdobramentos e mantém diálogo com as forças de segurança".
Parte do cotidiano da cidade
Centro comercial de Pacaraima, na fronteira do Brasil com a Venezuela
Nalu Cardoso/g1 RR
A partir de 2015, Pacaraima passou a vivenciar uma transformação sem precedentes. A intensificação da crise econômica e social na Venezuela fez crescer o número de pessoas cruzando a fronteira em direção ao Brasil.
Pequena e com estrutura limitada, Pacaraima viu crescer rapidamente a presença de venezuelanos em praças, postos de combustível e no comércio local. Muitos chegam a pé, carregando mochilas, sacolas e trazendo crianças, em busca de alimentação, trabalho e atendimento básico de saúde.
É nesse contexto que chegaram recentemente migrantes como José González, de 48 anos, natural de Maturín, no leste da Venezuela. Trabalhador autônomo, ele entrou no Brasil três dias antes dos novos desdobramentos políticos no país vizinho.
José González, de 48 anos, natural de Maturín, no leste da Venezuela
Ailton Alves/Rede Amazônica
José afirma que a decisão de sair da Venezuela não está relacionada a rejeição ao país de origem, mas à dor de deixar um lugar que já não oferece segurança.
"O fato de estarmos aqui é porque a situação nos levou a esses extremos. Não é que a gente se sinta rejeitado pelo país, não".
"O que a gente sente é dor pelo nosso país. A Venezuela nos dói”, disse.
Segundo ele, a instabilidade não se restringe a uma região específica. Ao falar sobre a notícia do ataque e da captura de Maduro, José diz ter sentido medo e incerteza, mas também esperança de uma solução diplomática.
“O que a gente espera agora é que tudo se resolva da melhor maneira, pelo diálogo. Quem sofre sempre é o povo inocente”, afirmou.
Ponto de ruptura
Local onde antes havia acampamento de venezuelanos às margens da BR-174 agora tem só restos de objetos queimados
Jackson Félix/G1 RR
Em agosto de 2018, episódios de violência e confronto entre brasileiros e venezuelanos marcaram um dos momentos mais críticos da história recente da cidade.
Ruas ficaram vazias, comércios fecharam as portas e Pacaraima ganhou projeção nacional como símbolo das dificuldades enfrentadas por municípios de fronteira diante de um fluxo migratório intenso.
À época, o município passou a ser descrito como um "território em tensão constante".
Operação Acolhida
Cerca de 400 migrantes venezuelanos esperam em posto de triagem da Operação Acolhida em Pacaraima
Caíque Rodrigues/g1 RR
Ainda em 2018, foi criada a Operação Acolhida. Comandada pelo Exército do Brasil, a iniciativa estruturou a triagem, a vacinação, a regularização de documentos e a interiorização de migrantes para outros estados do país.
Pacaraima passou a conviver de forma permanente com a presença de abrigos, equipes de saúde, militares e organizações humanitárias. Mesmo assim, muitos venezuelanos seguem vivendo fora das estruturas oficiais, alugando quartos, ocupando imóveis ou trabalhando no comércio local.
Fronteira fechada e ajuda humanitária
Em 2019, caminhões com ajuda humanitária partiram de Boa Vista em direção à fronteira, enquanto o fechamento temporário intensificou o uso de rotas ilegais, conhecidas como trochas.
Histórias de crianças venezuelanas que cruzavam a fronteira por caminhos alternativos para estudar em escolas brasileiras passaram a chamar atenção para a complexidade do fenômeno migratório.
Pacaraima hoje em dia
Centro comerical de Pacaraima, em Roraima
Nalu Cardoso/g1 RR
Pacaraima passou por um processo de adaptação. A cidade foi a que mais cresceu proporcionalmente em Roraima na última década, impulsionada principalmente pela migração.
Com o trânsito de migrantes, a cidade atingiu uma taxa de adesão ao PIX de 550%, segundo o levantamento “Geografia do PIX”, da FGV, que mapeou em todo o país o uso desse meio de pagamento criado pelo Banco Central.
São 106 mil pessoas usando a ferramenta, em média, a cada mês, para 19 mil habitantes.
Hoje, o espanhol é ouvido com frequência nas ruas, e venezuelanos trabalham em supermercados, restaurantes, oficinas, hotéis e no comércio informal.
Elizabeth Rincón, de 39 anos, é uma dessas migrantes. Ela chegou em Pacaraima há menos de um mês, deixou familiares na Venezuela e diz que os primeiros dias no Brasil foram marcados pela apreensão.
Vivendo longe do país natal, ela afirma que o futuro da Venezuela segue incerto e que a saída de Maduro não traz, por si só, segurança.
“Não me sinto aliviada, porque não sabemos o que vai acontecer agora. Tiraram Maduro, e depois? A gente não sabe. Deixamos tudo nas mãos de Deus”, afirmou.
Migrante venezuelana que vive em Pacaraima, na fronteira com a Venezuela
Ailton Alves/Rede Amazônica
Elizabeth conta que ficou abalada ao receber notícias confusas sobre o que estaria acontecendo no país, especialmente por causa da mãe, que continua na Venezuela.
“Fiquei triste, porque me disseram que tinha acontecido uma explosão, que a situação estava grave. Minha mãe está lá”, disse.
Ela afirma que conseguiu falar com a família e se acalmou parcialmente após saber que os episódios se concentraram em regiões específicas.
“Consegui falar com minha mãe cedo, e ela disse que estava tudo normal, que tinha sido mais em Caracas. Isso me aliviou um pouco”, contou.
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