Erros da esquerda, economia em baixa e alta do discurso liberal: o que fez a direita voltar ao poder na Bolívia após 20 anos

  • 31/08/2025
(Foto: Reprodução)
Como a direita chegou ao poder na Bolívia após 20 anos A Bolívia terá pela primeira vez em 20 anos um presidente de direita, após uma série de governos de esquerda. O segundo turno acontece em 19 de outubro. ✅ Clique aqui para seguir o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp Mas o que explica esse fenômeno? No primeiro turno, que aconteceu em 17 de agosto, Rodrigo Paz Pereira (PDC), considerado centro-direita, terminou com 32% dos votos, seguido por Jorge “Tuto” Quiroga (Libre), mais ligado à direita conservadora, com 26%. Os dados são da OEP, o órgão eleitoral oficial da Bolívia. Entre os partidos de esquerda, o Movimento ao Socialismo (MAS), partido histórico de Evo Morales e do atual presidente Luis Arce, conseguiu apenas 3% dos votos com Eduardo del Castillo, enquanto o candidato esquerdista mais votado, Andrónico Rodríguez, obteve 8%. Entenda a seguir em 5 pontos quais são os principais fatores que levaram a direita de volta ao poder no país. 1. Desgaste de Evo Morales Evo Morales REUTERS/Agustin Marcarian Líder sindical dos produtores de folha de coca, um cultivo tradicional da região, e primeiro presidente indígena da Bolívia, Evo Morales chegou ao poder em 2006 pelo partido MAS, prometendo dar voz às minorias historicamente marginalizadas. Sua vitória foi histórica: depois de anos de instabilidade política e governos conservadores, a esquerda assumia o comando do país. Nos primeiros anos, Morales levou adiante políticas de nacionalização do gás e de distribuição de renda, que coincidiram com o boom das commodities. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), a economia boliviana cresceu em média 5% ao ano entre 2006 e 2015, o que permitiu uma redução significativa da pobreza e consolidou imagem de Evo como líder popular. A boa fase da economia ajudou a manter Morales no poder. Ele foi reeleito em 2009 e em 2014, após mudanças na Constituição que facilitaram a reeleição. Em 2016, porém, sofreu sua primeira grande derrota: perdeu um referendo que poderia permitir candidaturas sem limite de mandatos. Mesmo assim, ele conseguiu autorização da Suprema Corte e do Tribunal Superior Eleitoral da Bolívia para disputar as eleições de 2019 — decisão que gerou críticas de que as instituições estavam agindo a favor do governo. As eleições de outubro de 2019 mudaram o rumo da política boliviana. No dia 20, durante a apuração, o Tribunal Eleitoral interrompeu a contagem de votos sem dar explicações, quando mais de 80% das urnas já tinham sido apuradas. Até aquele momento, a tendência era de que Morales disputasse o segundo turno contra o opositor Carlos Mesa. Mas no dia seguinte, quando a contagem foi retomada, o resultado apontou vitória de Evo já no primeiro turno, o que evitava o confronto direto com a oposição. A Organização dos Estados Americanos (OEA), formada por todos os países independentes da América (como Brasil, Estados Unidos e Argentina), questionou na época a transparência do processo e identificou indícios de fraude, como cédulas alteradas e assinaturas suspeitas. Nesse contexto, as ruas logo foram tomadas por protestos e a oposição passou a acusar Evo Morales de ter manipulado o resultado das eleições. Com o aumento da pressão, ele começou a perder apoio político. Na época, a polícia se negou a reprimir as manifestações e, pouco depois, as Forças Armadas recomendaram publicamente que o presidente renunciasse para evitar mais conflitos no país. Isolado, Morales anunciou novas eleições, mas, antes mesmo que elas fossem realizadas, decidiu renunciar e deixar o país. “Com toda essa tensão política, Evo fugiu primeiro para o México e depois para a Argentina, o que foi o fim de um ciclo de quase 14 anos no poder. Até hoje, os aliados dele dizem que aquilo foi um golpe de Estado, mas os críticos afirmam que a queda veio do desgaste político e da tentativa de se manter indefinidamente no cargo”, explica Paulo Velasco, professor de política internacional da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). 2. Economia em baixa Crise na Bolívia levou à escassez de combustível; na foto, caminhões aguardam em fila para abastecer em Viacha, perto de La Paz em 2025 Jorge Mateo Romay Salinas/Anadolu via Getty Images/BBC Além da tensão política, a economia também foi um fator crucial para o desgaste de Morales, do MAS e da esquerda como um todo. O primeiro governo de Evo Morales, iniciado em 2006, coincidiu com um momento de forte crescimento econômico na América Latina. Foi o período do chamado “boom das commodities”, quando a China aumentou a demanda por matérias-primas e impulsionou preços de gás, petróleo e minérios. Nesse período, Morales nacionalizou o setor de petróleo e gás, obrigou multinacionais a renegociar contratos e destinou parte dos novos recursos para políticas sociais e subsídios. “Com isso, a população boliviana viu uma melhora nas condições de vida, e o país passou a ser visto como exemplo de crescimento na América Latina”, informa o professor Paulo Velasco. A gestão econômica tinha como pilar Luis Arce, então ministro da Economia, que ajudou a estruturar um modelo econômico que combinava nacionalizações com abertura ao setor privado e aumento da renda interna. Esse arranjo garantiu estabilidade e crescimento por quase uma década no país. Mas a situação começou a mudar a partir de 2014. Com a queda dos preços das commodities no mercado internacional e a desaceleração econômica da China e do Brasil, principais parceiros comerciais da Bolívia, o crescimento do país começou a perder força. Segundo o analista Paulo Velasco, a conjuntura econômica passou a ser "bem mais adversa" do que nos primeiros anos de Morales. A inflação cresceu, as reservas internacionais caíram e o Estado já não tinha a mesma capacidade de controlar os preços dos alimentos e combustíveis. A população começou a sentir o empobrecimento no dia a dia. Leonardo Trevisan, professor de Relações Internacionais da ESPM, aponta que o ponto mais crítico foi a crise cambial. A escassez de dólares fez o valor da moeda disparar no mercado, elevando os custos de importados e insumos agrícolas, como fertilizantes. Isso pressionou ainda mais os preços da comida. “Na véspera do primeiro turno das eleições deste ano, a inflação anualizada era a maior em mais de 30 anos na Bolívia, em torno de 25%. Para um país onde mais de 60% da renda das famílias é dedicada à alimentação, o impacto foi devastador”, explica o professor. O desgaste corroeu a base de apoio popular do MAS. As camadas mais pobres, que haviam sustentado Morales por tanto tempo, sentiram o peso da inflação e da perda de poder de compra. 3. Morales x Arce: autofagia na esquerda Antigos aliados, Luis Arce e Evo Morales romperam e disputam liderança do MAS Ronaldo Schemidt/AFP Em 2020, depois da saída conturbada de Evo Morales da presidência, quem recebeu seu apoio direto para disputar e vencer as eleições foi Luis Arce, ex-ministro da Economia. No começo, Morales era o padrinho político que dava sustentação ao novo governo. Porém, com o tempo, a relação entre os dois se desgastou. Arce passou a criticar as tentativas de Morales de interferir em seu mandato. “Arce percebeu que Evo queria continuar mandando dentro do MAS e também no governo, o que gerava atritos. Essa disputa enfraqueceu a unidade do partido e abriu espaço para a divisão da esquerda”, analisa o professor Paulo Velasco. O rompimento ficou claro no primeiro turno das eleições deste ano. Arce, já impopular, não se candidatou. Pelo MAS, concorreu Eduardo del Castillo, ex-ministro do governo, que obteve apenas 3% dos votos. Morales, por sua vez, pediu aos eleitores que anulassem o voto. Segundo o professor Leonardo Trevisan, esse movimento mostrou que Morales ainda tem força, já que, nas eleições de 2025, 19% dos eleitores votaram nulo. No entanto, o especialista avalia que foi um “tiro no pé”, porque acabou tirando a esquerda do segundo turno. “Se somarmos os 19% de votos nulos aos 8% de Andrónico Rodríguez (AP), candidato de esquerda mais votado, o total seria maior que o resultado de ‘Tuto’ Quiroga, que passou ao segundo turno. Em outras palavras, a esquerda se dividiu e perdeu”, ressalta Trevisan. Ele também aponta que esse cenário deixou claro o afastamento de Evo de seus antigos aliados. “Tanto Arce, que foi seu ministro e depois presidente, quanto Andrónico, que presidiu o Senado, acabaram se distanciando de Morales. Na prática, foi a maior derrota da esquerda em 20 anos”, completa o professor. 4- Guinada à direita na América do Sul "Virada à direita" na América Latina, com Javier Milei na Argentina e Daniel Noboa no Equador, influencia na volta da direita na Bolívia, dizem analistas Reuters Para analistas, dois fatores ajudam a explicar a vitória da direita nas eleições bolivianas de 2025: De um lado, o resultado faz parte de uma “virada à direita” que vem mudando a política na América Latina, com líderes como Javier Milei na Argentina e Daniel Noboa no Equador. De outro, um padrão mais específico da Bolívia, onde a cada 20 anos o poder costuma alternar entre esquerda e direita. O professor Paulo Velasco, da UERJ, lembra que essa alternância é recorrente na história recente do país. “Foi o que aconteceu em 2005, quando Evo Morales venceu pela primeira vez, depois de um longo período de governos de direita já desgastados”, afirma. Segundo ele, a Bolívia vive ciclos bem definidos: um grupo político governa por cerca de duas décadas, até que os eleitores decidem mudar totalmente de direção. Antes de Morales, os anos 1990 e o início dos anos 2000 foram marcados por instabilidade: presidentes que não conseguiam terminar o mandato, partidos enfraquecidos e crises institucionais. Morales surgiu como resposta a esse cenário e, durante quase 14 anos no poder, consolidou o Movimento ao Socialismo (MAS) como a principal força política da Bolívia. Agora, depois de um longo período de hegemonia da esquerda, a alternância volta a aparecer. “Quem vai ser testada agora é a direita”, observa Velasco. Essa mudança também tem relação com o contexto regional. A chamada “onda rosa” — período em que governos de esquerda se fortaleceram em países como Bolívia, Brasil, Venezuela e Argentina nos anos 2000 — perdeu espaço diante de crises econômicas, inflação e insatisfação popular. Esse desgaste abriu caminho para novas lideranças conservadoras em várias partes da América do Sul, movimento que especialistas já chamam de “onda azul”. “A América Latina tem sido assim nos últimos 10 a 15 anos: há uma oscilação natural entre direita e esquerda. Hoje, é raro um grupo político se reeleger por muito tempo. E isso é saudável, porque mostra pluralismo político e reforça a importância da alternância no poder na região”, conclui Paulo Velasco. 5- Conquista dos eleitores pelo discurso liberal Rodrigo Paz Pereira e Jorge "Tuto" Quiroga vão disputar o segundo turno na Bolívia no próximo dia 19 de outubro. Alzar Raldes/AFP A vitória da direita nas eleições bolivianas de 2025 não se explica apenas pelo desgaste da esquerda. Analistas destacam que o resultado tem a ver com a conquista de eleitores desencantados com o governo e com a crise econômica. O desencanto com a esquerda abriu espaço para um discurso alternativo: a direita passou a falar em redução de impostos e diminuição do tamanho do Estado. Para Paulo Velasco, esse discurso ajudou a direita a conquistar eleitores que antes se identificavam com o MAS. De acordo com Velasco, a direita apresentou propostas que chamaram a atenção ao defender mudanças na economia e na posição internacional do país, aproveitando o descontentamento com a gestão do MAS e o fim da chamada "onda rosa" na América Latina. Entre os principais pontos estão a promessa de reduzir impostos, rever a participação da Bolívia em blocos internacionais e criticar a concentração de poder durante os anos de Evo Morales. Já o professor Leonardo Trevisan destaca que a estratégia foi mostrar que havia espaço para oferecer estabilidade e segurança sem repetir o modelo da direita tradicional. Dentro desse cenário, Paz Pereira e Quiroga se apresentam com perfis distintos. Jorge “Tuto” Quiroga (Libre), que presidiu a Bolívia entre 2001 e 2002 — após a renúncia de Hugo Banzer, de quem era vice —, defende uma economia mais liberal, com abertura para acordos externos e menor intervenção do Estado. Rodrigo Paz Pereira (PDC), filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, foca em propostas voltadas para inclusão social e apoio às populações urbanas e rurais mais afetadas pela crise econômica. Essa diferença de discurso ajudou a direita a alcançar públicos variados: enquanto Quiroga atraiu quem buscava experiência, segurança e estabilidade, Paz conquistou apoio de setores diretamente atingidos pela crise. “Quiroga aparece como o mais experiente e com maior capacidade política de influenciar o sistema boliviano, apoiado por redes políticas nacionais e internacionais. Paz Pereira, embora menos estruturado politicamente, tenta parecer um outsider e promete uma abordagem mais inclusiva e social, além de manter boa relação com parceiros internacionais, como o Brasil”, conclui o professor Paulo Velasco. Infográfico mostra o resultado do primeiro turno das eleições de 2025 na Bolívia Arte/g1 * Sob supervisão de Ricardo Gallo

FONTE: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2025/08/31/erros-da-esquerda-economia-em-baixa-e-alta-do-discurso-liberal-o-que-fez-a-direita-voltar-ao-poder-na-bolivia-apos-20-anos.ghtml


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