EUA ameaçam com força militar vizinhos que não ajudarem a combater narcotráfico e influência de rivais no Hemisfério Ocidental
26/01/2026
(Foto: Reprodução) O porta-aviões USS Gerald R. Ford aguarda no Caribe, em frente ao litoral da Venezuela
GETTY IMAGES
O governo de Donald Trump quer barrar a influência de seus rivais geopolíticos Rússia e China do Hemisfério Ocidental e ameaçou empregar ação militar contra países do continente que não cooperarem ou ainda obstruírem seus objetivos.
A ameaça, estendida a quem não colaborar com as ações de combate ao narcotráfico, está na nova Estratégia Nacional de Defesa dos EUA, publicada pelo Departamento de Guerra norte-americano na última sexta-feira (23). O intuito, segundo a estratégia, é assegurar aos EUA plena dominância militar e comercial "do Ártico à América do Sul".
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➡️A Estratégia Nacional de Defesa serve como guia das políticas e mobilizações militares planejadas para os próximos anos do governo dos EUA, além de detalhar como implementar a Estratégia de Segurança Nacional, divulgada em dezembro.
No novo documento, ao mesmo tempo em que fala em cooperação na base da "boa-fé" com os vizinhos, o governo Trump deixou a porta aberta para ações militares onde e quando julgar que seus interesses não estão sendo atendidos, e utilizou a operação militar em Caracas que depôs o ditador venezuelano Nicolás Maduro como exemplo de ações que o Exército norte-americano pode empregar no futuro.
A gestão de Donald Trump explica ainda como aplicará o lema que tem repetido desde a captura do venezuelano Nicolás Maduro, o de que "este é o nosso hemisfério". E fala de garantir "o acesso militar e comercial dos EUA a áreas estratégicas fundamentais, especialmente o Canal do Panamá, o Golfo da América e a Groenlândia. (...).
"Garantiremos, de forma ativa e destemida os interesses dos Estados Unidos em todo o Hemisfério Ocidental. Atuaremos de boa-fé com nossos vizinhos, do Canadá aos parceiros na América Central e do Sul, mas asseguraremos que respeitem e façam a sua parte na defesa de nossos interesses compartilhados. E, quando isso não ocorrer, estaremos prontos para adotar ações focadas e decisivas que promovam os interesses dos EUA. Este é o Corolário Trump à Doutrina Monroe, e as Forças Armadas dos EUA estão prontas para a aplicar com rapidez, poder e precisão, como o mundo viu na Operação Resolução Absoluta [que resultou na prisão de Maduro]", diz a nova estratégia, assinado pelo secretário Pete Hegseth.
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A política de defesa do 2º mandato do governo Trump, segundo o documento do Departamento de Guerra, busca a "paz por meio da força" e começa nas fronteiras dos EUA, passa pelo Domo de Ouro e termina no monitoramento e contenção de seus rivais globais, como a China e a Rússia, contando com a ajuda de aliados ao redor do mundo.
"Deter" a China por meio da força e da contenção, mas sem buscar confronto direto;
"Delegar" Rússia e a Coreia do Norte, identificadas como ameaças globais, para seus aliados cuidarem —Otan e Coreia do Sul e Japão, respectivamente;
"Narcoterrorismo" como alvo militar: EUA se reservou o direito de ataques militares diretos contra organizações narcoterroristas em qualquer lugar das Américas;
Vai obrigar Canadá e México a ajudar a fechar as fronteiras dos EUA para a entrada de imigrantes ilegais e de "narcoterroristas";
Aumentar a responsabilidade dos aliados no "fardo da segurança compartilhada";
China
Trump e Xi Jinping se encontram em Busan, na Coreia do Sul, nesta quinta-feira (30).
Reuters/Evelyn Hockstein
A China é tratada na nova estratégia como o principal rival dos EUA no palco mundial e, por isso, é necessário "deter" o país de Xi Jinping "por meio da força, não do confronto", ou seja, sem entrar em guerra.
No entanto, o documento diz não ser necessário "dominar nem estrangular" Pequim para atingir esse objetivo, e indicou que vai buscar um arranjo em que cada um exerça dominação em suas regiões de influência para evitar choques.
Isso seria buscado por meio de dois fatores:
Esforços diplomáticos com Xi Jinping;
Aumentar a presença militar no Pacífico Ocidental —entre o Japão e as Filipinas, passando por Taiwan— para se contrapor à rápida mobilização chinesa na região.
"China e suas forças armadas tornaram-se cada vez mais poderosas na região do Indo-Pacífico, a maior e mais dinâmica área de mercado do mundo, com implicações significativas para a segurança, a liberdade e a prosperidade dos próprios americanos. (...) Vamos manter um equilíbrio favorável de poder militar no Indo-Pacífico. (...) Isso não exige mudança de regime nem algum outro tipo de luta existencial. Em vez disso, é possível alcançar uma paz aceitável, em termos favoráveis aos americanos, mas que a China também possa aceitar e sob os quais consiga viver", afirmou o documento.
Trump busca uma "paz estável, comércio justo e relações respeitosas" com a China, segundo o documento. Mas os EUA dizem estar de olho na região do Pacífico Oriental, que abrange Taiwan, Hong Kong e Japão.
Outros pontos da estratégia
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante reunião com o secretário-geral da Otan, em 21 de janeiro de 2026
REUTERS/Jonathan Ernst
O governo Trump considera primordial, ainda de acordo com a Estratégia de Defesa, garantir o "acesso militar e comercial" nas regiões do Ártico, do Golfo das Américas, do Canal do Panamá e em outras regiões da América do Sul. E já começou a aplicar essa estratégia, em casos como a tentativa de adquirir a Groenlândia e investidas contra a influência chinesa no canal marítimo da América Central.
O governo Trump diz também querer "fechar as fronteiras e deportar" imigrantes ilegais, e afirmar contar com a ajuda do Canadá e do México para isso.
Em relação ao combate ao narcotráfico, o Departamento de Guerra afirma se reservar o direito de empregar "ações militares unilaterais" contra narcotraficantes, mas disse que quer ajudar a desenvolver a capacidade de aliados de desmantelar cartéis de drogas latino-americanos.
O documento também tratou do Domo de Ouro, e afirmou que o Canadá terá um papel importante para fechar as defesas aéreas perto dos EUA.
O governo Trump também fala em "modernizar e adaptar" suas forças nucleares e fazer uma retomada da indústria militar dos EUA.