Exército da Síria diz ter tomado controle do último bairro curdo em Aleppo; milicianos negam
10/01/2026
(Foto: Reprodução) Exército da Síria diz ter tomado último bairro curdo de Aleppo
O Exército da Síria afirmou, neste sábado (10), ter tomado o último bairro de Aleppo ainda controlado por combatentes curdos, importante minoria étnica que controla parte do nordeste do país. Os milicianos, por outro lado, negaram e disseram que os confrontos continuam.
Correspondentes da AFP no local relataram ter ouvido tiros no bairro Sheikh Maksoud pela manhã e visto um grande número de forças governamentais entrando na área.
Desde o início dos confrontos na cidade, na terça-feira (6), pelo menos 21 civis morreram, segundo fontes dos dois lados. Cerca de 142 mil pessoas foram deslocadas em meio ao conflito, que tem trocas de bombardeios e ataques com drones.
"Anunciamos o fim de uma operação de segurança abrangente no bairro de Sheikh Maksoud, em Aleppo", declarou o Exército em um comunicado divulgado pela agência de notícias oficial Sana.
As forças curdas negaram essa versão "infundada", afirmando que pretendem "continuar resistindo" após o ataque do exército com tanques e "bombardeios de artilharia brutais".
Os curdos controlam grande parte do nordeste do país, ao leste de Aleppo, desde os anos da guerra civil, e possuem sua própria administração e forças armadas, as Forças Democráticas da Síria (FDS).
Integrantes do Exército da Síria patrulham o bairro de Sheikh Maksoud após afirmarem ter assumido o controle da área
Khalil Ashawi/Reuters
O Ministério da Defesa da Síria anunciou um cessar-fogo nesta sexta-feira (9), após três dias de confrontos. O governo instou os combatentes curdos a deixarem a cidade e prometeu levá-los em segurança para áreas sob o controle da autoridade curda mais a leste.
"A única opção para os elementos armados na área de Sheikh Maksoud, em Aleppo, é se render imediatamente, com as armas em punho, no posto de controle militar mais próximo, em troca de garantias para suas vidas e segurança pessoal", alertou o Ministério da Defesa sírio.
Mas os milicianos se recusaram a se render e nenhum combatente deixou a área nas horas seguintes. Ônibus posicionados para a evacuação permaneceram vazios mesmo após o fim do prazo. Os combates, então, foram retomados na madrugada.
O governador de Aleppo, Azzam al-Gharib, percorreu durante a madrugada os bairros em disputa, escoltado por forças de segurança.
Moradores do bairro Sheikh Maqsoud caminham entre prédios danificados em Aleppo
Bakr Alkasem/AFP
Impasse nas negociações
Os confrontos ocorrem em meio a um impasse nas negociações políticas entre o Estado central e as FDS.
O governo do presidente interinor Ahmed al-Shara, sediado em Damasco após a queda de Bashar al-Assad no final de 2024, assinou um acordo com os curdos em março para integrá-los às novas instituições estatais, como o Exército sírio, mas o pacto está paralisado.
Algumas das facções que compõem o novo Exército sírio eram anteriormente grupos insurgentes apoiados pela Turquia, com histórico de confrontos com forças curdas.
As FDS são há anos o principal aliado dos EUA na luta contra o Estado Islâmico na Síria, mas a Turquia considera o grupo uma organização terrorista por sua ligação com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).
Apesar do apoio prolongado dos EUA às SDF, o governo Trump também estreitou relações com o governo de al-Sharaa e pressionou os curdos a implementar o acordo de março.
Agora, ambos os lados se acusam mutuamente de terem iniciado o surto de violência em Aleppo.
O Exército sírio também anunciou a captura de Ashrafieh, o outro bairro controlado pelos curdos em Aleppo.
Apesar desses confrontos, os curdos permanecem dispostos a continuar as negociações com Damasco para a integração de suas instituições ao governo central.
"Com esses ataques, o governo está tentando encerrar os acordos. Mas continuamos comprometidos com eles e estamos trabalhando arduamente para implementá-los", disse Elham Ahmed, chefe de relações exteriores da administração local curda, à AFP.
Civis evacuam área do bairro Sheikh Maqsoud, onde confrontos entre forças do governo e combatentes curdos
Omar Albam/AP Photo