Fed interrompe ciclo de cortes e mantém juros dos EUA na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano
28/01/2026
(Foto: Reprodução) Foto de arquivo: O presidente dos EUA, Donald Trump, observa Jerome Powell, seu indicado para presidir o Federal Reserve (Fed), durante discurso na Casa Branca, em Washington, EUA, em 2 de novembro de 2017.
REUTERS/Carlos Barria/Foto de arquivo
O Federal Reserve (Fed), banco central dos Estados Unidos, manteve a taxa de juros do país inalterada na faixa de 3,50% a 3,75% ao ano — menor nível desde setembro de 2022. A decisão, anunciada nesta quarta-feira (28), veio em linha com a expectativa do mercado financeiro.
O movimento interrompe um ciclo de três cortes consecutivos promovidos pelo banco central americano. Na reunião anterior, em 10 de dezembro, o Fed havia reduzido a taxa em 0,25 ponto percentual.
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A primeira decisão sobre os juros em 2026 ocorre em meio à pressão crescente do presidente Donald Trump sobre a instituição, incluindo acusações diretas ao chefe do Fed, Jerome Powell, e a tentativa de demitir a diretora Lisa Cook — caso que está sendo julgado pela Suprema Corte.
O Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) informou, em comunicado, que a geração de empregos permaneceu baixa no país, enquanto a taxa de desemprego mostrou sinais de estabilidade. O colegiado também destacou que a inflação segue "um pouco alta".
"A incerteza sobre as perspectivas econômicas permanece elevada. O Comitê está atento aos riscos em ambos os lados de seu duplo mandato [direcionado a estimular o emprego e controlar a inflação]", diz o texto.
Em entrevista a jornalistas, Jerome Powell reforçou o tom do comunicado — mais duro do que o de dezembro — e indicou que um novo corte de juros é improvável no curto prazo. (leia mais abaixo)
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A decisão desta quarta-feira foi a nona desde que Donald Trump assumiu como 47º presidente dos EUA, em 20 de janeiro de 2025. Desde a posse, houve três cortes de juros, em meio a um cenário econômico mais adverso, diante da guerra tarifária promovida pelo republicano.
Economistas, agentes do mercado e o próprio Fed expressaram temores sobre os impactos, nos EUA, das sobretaxas aplicadas por Trump. Um dos principais receios é a alta da inflação ao consumidor, o que levou o banco central a adiar sucessivas vezes a redução dos juros.
No segundo semestre do ano passado, dados de um mercado de trabalho mais fraco passaram a indicar uma desaceleração da economia americana. Ao mesmo tempo, a inflação seguiu sob controle, embora ainda acima da meta de 2% — o que dividiu o Fed, mas abriu espaço para cortes de juros.
No comunicado desta quarta, o Fomc afirmou que "continuará monitorando as implicações das novas informações para as perspectivas econômicas" e que está "preparado para ajustar a política monetária, se necessário, caso surjam riscos que possam comprometer o alcance de seus objetivos".
"As avaliações do Comitê levarão em consideração uma ampla gama de informações, incluindo dados sobre condições do mercado de trabalho, pressões inflacionárias e expectativas de inflação, além de desenvolvimentos financeiros e internacionais", acrescentou.
Analistas avaliam que o comunicado teve um tom mais duro do que o divulgado em dezembro, indicando que a taxa de juros deve permanecer estável por algumas reuniões.
Mais uma vez, a decisão desta quarta não foi unânime. Além do presidente do Fed, Jerome Powell, e do vice, John C. Williams, oito diretores votaram para manter a taxa inalterada.
Por outro lado, dois se posicionaram a favor de um corte de 0,25 ponto percentual: Stephen I. Miran, nomeado por Trump, e Christopher J. Waller, cotado para substituir Powell na presidência da instituição. (leia mais abaixo)
O que disse Powell
Jerome Powell durante uma coletiva de imprensa após decisão sobre taxas de juros, em 17 de setembro de 2025.
Reuters
Em entrevista a jornalistas após a divulgação do comunicado, Powell indicou que um novo corte de juros é improvável no curto prazo.
“Se você observar os dados que chegaram desde a última reunião, há uma clara melhora nas perspectivas de crescimento. Tudo indica que este ano começa com uma base sólida para as taxas de juros", disse.
Para o chefe do Fed, a inflação americana teve um desempenho “basicamente dentro do esperado”, enquanto os dados do mercado de trabalho sugerem “evidências de estabilização”, em linha com o comunicado do Fomc.
“Muitos dos meus colegas consideram difícil olhar para os dados recentes e dizer que a política monetária está significativamente restritiva neste momento”, afirmou.
Ataques ao Fed
Crítico das decisões do Federal Reserve, Trump disse que anunciará em breve o substituto para Powell — alvo frequente das críticas do republicano. O mandato de Powell termina em maio.
Trump chegou a afirmar sua pretensão de indicar o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent — que recusou o convite. Com isso, o nome de Kevin Hassett, conselheiro econômico da Casa Branca, passou a ser apontado como um dos favoritos para o cargo.
Em entrevista ao site Politico, em dezembro, o presidente dos EUA foi questionado se apoiar a redução dos juros seria um requisito para o próximo indicado a comandar o Fed. Ele respondeu: “Sim”.
Os diretores do Fed Christopher Waller e Michelle Bowman também figuram entre os cotados para assumir a presidência da instituição. A escolha deve ocorrer em um momento marcado pela intensificação da pressão de Trump, que quer juros abaixo de 1%.
No episódio mais recente, Trump ameaçou apresentar uma acusação criminal contra Powell em relação a uma reforma de US$ 2,5 bilhões (R$ 15,6 bilhões) na sede da instituição, em Washington.
O caso levou à abertura de uma investigação criminal por procuradores federais. Powell é acusado de minimizar, em depoimento ao Senado, gastos elevados e considerados luxuosos na reforma da sede do Fed, o que levou parlamentares a comparar o projeto ao Palácio de Versalhes.
Powell, por sua vez, afirmou que as acusações são imprecisas e enganosas, negou a compra de itens de luxo e disse que a reforma, financiada pelo próprio Fed, visa modernização e redução de custos no longo prazo.
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O interesse de Trump
No segundo semestre de 2025, Trump passou a se dedicar à indicação de nomes alinhados à sua agenda econômica para a diretoria do Federal Reserve.
O republicano já nomeou Stephen Miran para substituir Adriana Kugler, diretora que antecipou sua saída do cargo, em agosto.
Enquanto isso, a Suprema Corte analisa a tentativa do republicano de demitir Lisa Cook do cargo de diretora do Fed, em uma decisão que pode ser anunciada nas próximas semanas.
Caso a Justiça confirme a demissão de Lisa Cook, Trump terá garantido ao menos duas indicações para a diretoria do Fed. O cargo de presidente da instituição também está no horizonte, já que o mandato de Powell se encerra em maio.
Em meio às movimentações no Fed, caso Trump alcance maioria de aliados no conselho da instituição — que tem sete membros —, ele terá maior influência sobre a aprovação das nomeações nos 12 bancos regionais. Assim, ampliaria sua interferência sobre as decisões de juros.
Efeito dos juros no Brasil — e nos mercados
Os juros, ainda considerados elevados nos EUA, mantêm os rendimentos das Treasuries, os títulos públicos americanos, em níveis mais atraentes.
Por serem considerados os investimentos mais seguros do mundo, as Treasuries com rentabilidades elevadas despertam o interesse de investidores estrangeiros, que direcionam recursos aos EUA e fortalecem o dólar.
Em outra perspectiva: apesar de diversas variáveis interferirem nessa lógica, o movimento tende a reduzir o volume de investimentos estrangeiros no Brasil, desvalorizando o real em relação à moeda americana.
Além disso, o dólar em nível elevado aumenta a pressão sobre a inflação por aqui, com reflexos na manutenção de juros altos pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central do Brasil.
Prédio do Federal Reserve dos EUA em Washington, EUA (maio/2020)
Kevin Lamarque / Reuters