Maduro capturado: entenda a semana que virou a Venezuela de cabeça para baixo e o que esperar daqui pra frente
10/01/2026
(Foto: Reprodução) EUA devem 'administrar' Venezuela e extrair petróleo por 'vários anos', diz Trump
No dia 3 de janeiro, a Venezuela acordou sob o impacto de uma operação dos Estados Unidos que resultou no sequestro do ditador Nicolás Maduro. Uma semana depois, o país tem uma nova liderança, que tem cedido à pressão norte-americana enquanto amplia a repressão interna.
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▶️ Contexto: A operação norte-americana ocorreu após meses de tensões entre Estados Unidos e Venezuela. A movimentação militar começou ainda em agosto, sob a justificativa do combate ao tráfico internacional de drogas.
Naquele mês, os EUA dobraram para US$ 50 milhões a recompensa por informações que levassem à prisão Maduro.
O então ditador venezuelano era acusado de chefiar uma suposta organização criminosa conhecida como Cartel de los Soles, que atuaria no narcotráfico.
Nos meses seguintes, militares norte-americanos atacaram mais de 30 embarcações que, segundo o governo, transportavam drogas da América do Sul para os EUA.
Trump também passou a ameaçar ataques terrestres contra a Venezuela. Ele chegou a conversar por telefone com Maduro, mas nenhum acordo foi fechado.
💥 O ataque: A ação que tirou Maduro do poder foi desencadeada na madrugada de sábado, 3 de janeiro, após ordem de Trump. Por volta das 2h, no horário local (3h em Brasília), uma série de explosões foi ouvida em Caracas.
Cerca de uma hora e meia depois, o governo venezuelano afirmou que o país estava sendo atacado pelos EUA e que bombardeios haviam atingido áreas civis e militares.
No início da manhã, Trump confirmou a operação e anunciou que militares de uma força de elite haviam capturado Maduro.
O presidente venezuelano foi levado para os Estados Unidos junto da mulher, Cilia Flores. Ele está preso em uma penitenciária de Nova York.
O governo da Venezuela disse que 100 pessoas morreram nos ataques, incluindo civis.
Trump afirmou que os EUA vão governar Venezuela a partir de agora. Enquanto isso, o regime chavista tenta demonstrar resistência ao formar um governo interino. Na prática, porém, o país tem dado sinais de influência externa, ao ceder petróleo aos norte-americanos.
🔎Uriã Fancelli, mestre em relações internacionais pelas universidades de Estrasburgo e Groningen, afirma que o governo Trump deve continuar buscando cooperação em temas de interesse próprio enquanto o regime permanece no poder.
“Ao longo das próximas semanas, é provável que a repressão interna continue para projetar controle, enquanto os Estados Unidos seguem fazendo exigências concretas, como os barris de petróleo, tornando cada concessão mais difícil de justificar”, disse.
“Pelo menos no curto prazo, não há um horizonte real de retorno da democracia na Venezuela.”
Nesta reportagem você vai ver:
O que Trump disse após a operação
Como o governo da Venezuela tentou se reorganizar
O aumento da repressão na Venezuela
A repercussão internacional
O que esperar para as próximas semanas
1. O que Trump disse após a operação
Trump fala sobre ataque à Venezuela
Reuters/Jonathan Ernst
Na tarde de 3 de janeiro, após o fim da operação militar na Venezuela, Trump deu uma entrevista coletiva no resort de Mar-a-Lago, na Flórida. Diante de jornalistas, ele afirmou que os Estados Unidos vão “administrar” o país sul-americano de forma interina.
Segundo o presidente, o governo provisório funcionará por meio de um grupo designado por ele até que houvesse uma transição de poder.
Nos dias seguintes, ele anunciou que esse grupo incluiria o secretário de Estado, Marco Rubio; o secretário de Defesa, Pete Hegseth; o vice-chefe de gabinete da Casa Branca, Stephen Miller; e o vice-presidente, JD Vance.
O presidente disse que terá a palavra final sobre todas as decisões.
Trump descartou entregar o poder à líder da oposição venezuelana, María Corina Machado, afirmando que ela não é respeitada no país. Enquanto não houver uma transição, segundo ele, os Estados Unidos vão dialogar com a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez.
Na segunda-feira (5), em entrevista à NBC News, Trump descartou a possibilidade de eleições no país dentro de 30 dias. Ele disse que seria necessário “consertar” a Venezuela antes de qualquer novo pleito.
O presidente também afirmou que Delcy tem colaborado com as autoridades americanas. Ele disse que não está em guerra com a Venezuela, mas declarou que pode autorizar um novo ataque caso o governo interino deixe de cooperar.
Já na quinta-feira (8), em entrevista ao jornal The New York Times, Trump disse que os Estados Unidos vão administrar a Venezuela “por muitos anos” e explorar o petróleo do país.
Ele já havia dito que a Venezuela concordou em entregar até 50 milhões de barris de petróleo — o equivalente a quase dois meses da produção venezuelana.
Trump afirmou que os recursos obtidos com a venda desse petróleo serão administrados por ele para o benefício dos Estados Unidos e da Venezuela.
Ainda segundo ele, a Venezuela terá de usar o dinheiro da venda de petróleo aos EUA exclusivamente para a compra de produtos norte-americanos.
2. Como o governo da Venezuela tentou se reorganizar
Vice-presidente e ministra do Petróleo da Venezuela, Delcy Rodríguez, fala à imprensa em Caracas, na Venezuela, em 10 de março de 2025.
Reuters
Cerca de uma hora após o início do ataque dos Estados Unidos, o governo da Venezuela divulgou um comunicado afirmando que Nicolás Maduro havia decretado estado de emergência e ativado planos de mobilização para derrotar a “agressão imperialista”.
Pouco depois, no entanto, os Estados Unidos confirmaram que haviam capturado o ditador venezuelano. A vice-presidente Delcy Rodríguez disse não saber onde Maduro estava e pediu uma prova de vida.
Com Maduro fora do país, Delcy fez um pronunciamento em rede nacional e convocou ministros e a população venezuelana a resistir a uma intervenção dos Estados Unidos. Ela pediu calma e afirmou que a Venezuela “nunca será uma colônia”.
A Corte Superior determinou que, na ausência de Maduro, Delcy deveria governar por 90 dias.
As Forças Armadas também a reconheceram como presidente interina.
Na segunda-feira (5), ela assumiu o governo oficialmente, em uma cerimônia.
Após a posse, Delcy afirmou que nenhum “agente externo” governa a Venezuela. Ao mesmo tempo, em um aceno aos EUA, disse que o país está aberto a manter relações energéticas nas quais todas as partes se beneficiem.
Quem é Delcy Rodríguez, presidente interina da Venezuela reconhecida pelas Forças Armadas
3. O aumento da repressão na Venezuela
membro do grupo paramilitar conhecido como 'colectivos' participa de uma marcha que pede a libertação de Nicolás Maduro, em Caracas, Venezuela, em 4 de janeiro de 2026
REUTERS/Gaby Oraa
A Venezuela intensificou a repressão nas ruas após a prisão de Maduro. Cidadãos passaram a ser interrogados em postos de controle, e houve registros de prisões, inclusive de jornalistas.
Na segunda-feira, o governo de Delcy Rodríguez ordenou que a polícia iniciasse imediatamente uma “busca e captura em âmbito nacional de todos os envolvidos na promoção ou no apoio ao ataque armado dos Estados Unidos”.
Na quarta-feira (7), o jornal The New York Times revelou que ao menos 14 jornalistas e outros seis cidadãos haviam sido detidos na Venezuela desde a operação norte-americana.
“Nos últimos dias, as forças de segurança interrogaram pessoas em postos de controle, entraram em ônibus públicos e revistaram os celulares dos passageiros, buscando evidências de apoio à destituição de Maduro”, disse o jornal, com base em relatos de venezuelanos e de grupos de direitos humanos.
Em meio ao estado de emergência, moradores relataram o aumento da presença de policiais e agentes de segurança nas ruas, incluindo milícias que atuam mascaradas e armadas.
A ONG Foro Penal informou ainda que dois irmãos idosos foram presos em uma área rural após comemorarem a prisão de Maduro. Segundo advogados, eles dispararam tiros para o alto e fizeram piadas com vizinhos simpatizantes do governo, que acionaram a polícia.
Já na quinta-feira (8), o presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Jorge Rodríguez, anunciou que o país libertaria “um número significativo” de prisioneiros venezuelanos e estrangeiros. No entanto, ONGs denunciaram que apenas 11 foram soltos.
4. A repercussão internacional
Maduro / Conselho de Segurança ONU
Montagem/g1
A operação dos Estados Unidos na Venezuela dividiu líderes mundiais. Países alinhados a Maduro, como Rússia, China, Cuba e Irã, condenaram a ação. Já lideranças de direita, principalmente na América do Sul, elogiaram Trump.
A Rússia classificou a operação como um “ato de agressão armada” e disse estar “profundamente preocupada” com a situação da Venezuela.
O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, chamou a ação de “ataque criminoso” e pediu uma resposta da comunidade internacional.
Na América do Sul, o presidente da Argentina, Javier Milei, comemorou a operação em uma rede social e afirmou que “a liberdade avança”.
No Brasil, o presidente Lula (PT) divulgou uma nota condenando o ataque. Ele afirmou que os bombardeios e a captura de Maduro representam uma afronta à soberania venezuelana e criam um “precedente perigoso” para a comunidade internacional.
Na segunda-feira, o Brasil e outros 21 países condenaram a operação durante uma reunião do Conselho de Segurança da ONU. Na ocasião, a Venezuela pediu que o órgão atue para impedir que o governo Trump se aproprie de recursos naturais do país.
Durante a sessão, o embaixador da Rússia na ONU, Vasily Nebenzya, pediu a libertação imediata de Maduro e acusou os EUA de serem “hipócritas e cínicos”. Segundo ele, a Casa Branca não escondeu o caráter de uma “operação criminosa” voltada à tomada de recursos energéticos venezuelanos.
Já o embaixador chinês na ONU, Fu Cong, disse estar “profundamente chocado” e afirmou que “nenhum país tem autoridade para agir como polícia ou tribunal internacional”. Ele também achou a ação de “bullying” do governo norte-americano.
5. O que esperar para as próximas semanas
Protesto contra os ataques dos EUA à Venezuela e a prisão de Nicolás Maduro na cidade de Nova York
REUTERS/Jeenah Moon
Para o analista Uriã Fancelli, mestre em relações internacionais pelas universidades de Estrasburgo e Groningen, os objetivos dos Estados Unidos na Venezuela ficaram mais claros ao longo dos últimos dias.
Segundo ele, a ofensiva do governo Trump não tem como foco derrubar o regime chavista nem promover uma transição democrática imediata, mas forçar uma mudança de comportamento do governo venezuelano.
“A lógica passa a ser a seguinte: se houver cooperação, as ameaças militares podem ser suspensas, sanções poderão ser aliviadas e investimentos privados estimulados. Se não houver, a pressão continua de todas as formas possíveis”, diz.
Nesse cenário, Fancelli afirma que o chavismo tem se reorganizado em torno da presidente interina, Delcy Rodríguez, que enfrenta um dilema. Ela precisa ceder o suficiente para garantir a sobrevivência do poder, sem desmontar a narrativa de resistência ao “imperialismo”, que ainda sustenta parte da base interna.
Segundo o analista, o poder político está concentrado em Delcy e no irmão, Jorge Rodríguez, presidente da Assembleia Nacional.
Enquanto isso, o controle do poder militar está nas mãos de Vladimir Padrino López, ministro da Defesa, e de Diosdado Cabello, ministro do Interior.
Segundo o analista, Cabello controla a polícia, os serviços de inteligência e as redes paramilitares.
“É justamente por isso que Delcy permanece ali: porque o regime precisa de alguém capaz de negociar com o exterior, algo que Padrino López e Cabello não conseguem fazer”, afirma.
Segundo Fancelli, o objetivo comum do atual regime chavista é evitar a perda do poder, já que uma ruptura interna teria consequências graves, incluindo risco de prisão, exílio ou morte. Nesse contexto, a tendência é de manutenção da repressão e de negociações pontuais com os Estados Unidos.
“Nas próximas semanas, é provável que a repressão interna continue para projetar controle, enquanto os EUA seguem fazendo exigências concretas, como no caso do petróleo. Pelo menos no curto prazo, não há horizonte real de retorno da democracia na Venezuela.”
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