O que está por trás do confronto entre Israel, Irã e Estados Unidos e o que podemos esperar?
03/03/2026
(Foto: Reprodução) Destruição no Irã após ataques dos EUA e de Israel
REUTERS/Ronen Zvulun
Se você abriu o noticiário hoje, vai ver uma coisa clara: o Oriente Médio está à beira de uma guerra maior.
Neste texto, o g1 explica o que está acontecendo e por quê.
Qual é o cenário neste momento?
Depois da intervenção norte-americana no último fim de semana, Israel e Irã passaram a se atacar diretamente. Agora, o Líbano também entrou na rota da tensão.
Nesta manhã, Israel afirmou que atacou o complexo presidencial do Irã e a sede do Conselho Supremo de Segurança Nacional — ou seja, o coração do poder político e militar iraniano.
Isso acontece poucos dias depois da morte do líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei — autoridade máxima religiosa e política do país, com poder acima do presidente. Ele foi morto nos ataques do fim de semana.
Apesar dos bombardeios, ainda não há confirmação oficial sobre vítimas nesses alvos mais recentes. Em várias áreas, moradores estão vivendo em bunkers desde o início da ofensiva no sábado (28).
Um balanço da mídia estatal iraniana nesta terça-feira (3) subiu o número de pessoas mortas para 787.
O governo iraniano declarou que a ação norte-americana nos ataques representa uma “declaração de guerra”.
Ao mesmo tempo, o conflito já transbordou para outro ponto sensível: o Líbano, onde atua o Hezbollah.
A crise já mobiliza pelo menos uma dúzia de países do Oriente Médio, seja por abrigarem bases militares, por terem alianças estratégicas com os envolvidos ou por estarem na rota direta da escalada.
A tensão vem aumentando porque essa nova escalada expõe rivalidades antigas e amplia o risco de confrontos.
O raio-X do conflito até agora:
No Irã, pelo menos nove cidades foram atacadas, incluindo a capital, Teerã.
Nos ataques, morreram o líder supremo, Ali Khamenei, além de três dos principais chefes militares do país — o ministro da Defesa, o chefe do Estado-Maior e o comandante da Guarda Revolucionária.
Pelo menos seis soldados americanos morreram.
No Irã, as mortes já passam de 700.
Nesta terça-feira (3), o Exército de Israel atacou o prédio da Assembleia dos Peritos do Irã, órgão responsável por escolher o próximo líder supremo do país. Havia 88 aiatolás no momento da explosão e ainda não há informação sobre mortos.
Em Israel, a capital, Tel Aviv, Jerusalém e a região da Cisjordânia foram atacadas.
Até agora, foram bombardeados pelo Irã, em contra-ataque, Iraque, Jordânia, Kuwait, Bahrein, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Israel.
Como essa briga começou?
Israel e Irã são adversários históricos. Durante anos, o confronto foi indireto.
O Irã financia e apoia grupos armados que enfrentam Israel na região. O Hezbollah é o principal deles.
➡️ Desde 2023, Israel e Hezbollah vinham trocando ataques. Houve um cessar-fogo em outubro de 2024, mas os confrontos voltaram após a nova escalada contra o Irã feita no fim de semana.
Hoje, em resposta, a fronteira do Líbano está cercada por militares israelenses.
Por que os Estados Unidos entraram nisso?
É importante saber que os Estados Unidos são o principal aliado de Israel.
➡️ O argumento oficial de Washington e de Tel Aviv é que o ataque aconteceu porque o programa nuclear iraniano representa uma ameaça. O temor é que o Irã esteja se aproximando da capacidade de produzir uma arma nuclear.
Hoje, nove países possuem armas nucleares: Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Índia, Paquistão, Coreia do Norte e Israel. Vale lembrar que o Irã sempre negou que esteja buscando desenvolver uma bomba.
O que aconteceu com o acordo nuclear?
Em 2015, o governo de Barack Obama assinou um acordo com o Irã. Nele, o país limitava seu programa nuclear e aceitava fiscalização internacional. Em troca, teria alívio de sanções econômicas.
Em 2018, no primeiro mandato, Donald Trump quebrou esse acordo. Sem o pacto, o Irã passou a ampliar o enriquecimento de urânio.
Em 2025, houve um aumento da tensão nesse assunto e os EUA atacaram instalações nucleares iranianas. Desde então, tentavam negociar novos limites.
Em fevereiro deste ano, os dois países tentaram negociar em reuniões, mas houve uma queda de braço:
Os americanos exigiam redução drástica do enriquecimento, entrega do estoque acumulado e desmonte de instalações estratégicas.
O Irã dizia que não abriria mão do direito de enriquecer urânio.
Os ataques ocorreram após várias rodadas de negociações e quando elas ainda estavam em curso - havia uma reunião marcada para segunda-feira (2).
Entenda por que mundo monitora enriquecimento de urânio
Por que estão falando de urânio?
O urânio é um elemento químico extraído de rochas. Quando sai da natureza, tem baixo teor do tipo necessário para uso nuclear.
Para ser utilizado, ele passa por um processo chamado enriquecimento, feito em máquinas chamadas centrífugas, que giram em altíssima velocidade. Elas aumentam a concentração do material capaz de gerar reação nuclear.
Com enriquecimento de até cerca de 20%, o urânio pode ser usado para produzir energia e também em pesquisas científicas, exames médicos e tratamentos oncológicos.
O problema é o nível.
Com concentração próxima de 90%, o material atinge o chamado grau militar — suficiente para fabricar uma arma nuclear.
➡️ Nos últimos anos, o Irã acumulou centenas de quilos de urânio enriquecido a cerca de 60%. Tecnicamente, sair de 60% para 90% é um salto muito menor do que sair de 0% para 60%. É isso que preocupa Estados Unidos e Israel.
Por que o mundo inteiro está atento?
O conflito naquela região pode afetar o mundo em vários níveis.
O preço do petróleo já subiu, o que pressiona combustíveis e inflação globalmente.
Diplomaticamente, o cenário se dividiu. Países do BRICS adotaram posições diferentes. A União Europeia alertou para “graves consequências” e pediu reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU. A ONU apelou por negociações imediatas.
Já sobre o assunto armas nucleares, especialistas descrevem o momento como um “cenário sombrio”.
Essa tensão não é porque exista uma bomba prestes a ser usada, mas porque o sistema internacional de controle nuclear vem se enfraquecendo nos últimos anos -- isso é um risco global. Tratados foram abandonados, arsenais estão sendo modernizados e, agora, instalações nucleares estão sendo atacadas diretamente.
A pergunta que fica é até onde essa escalada pode ir — e se ainda há espaço para frear antes que o conflito se torne regional ou algo maior.