Papa Leão XIV faz pedido histórico de perdão pelo papel da Igreja na legitimação da escravidão
25/05/2026
(Foto: Reprodução) Papa Leão XIV na Missa de Pentecostes na Basílica de São Pedro, no Vaticano.
Gregorio Borgia/AP
O papa Leão XIV fez nesta segunda-feira (25) um pedido histórico de perdão pelo papel da própria Santa Sé na legitimação da escravidão e por ter demorado séculos para condená-la. Ele classificou o passado do Vaticano como uma “ferida na memória cristã”.
Papados anteriores já haviam pedido desculpas pelo envolvimento de cristãos no tráfico transatlântico de escravizados. Mas nenhum papa havia reconhecido publicamente — nem pedido perdão — pelo papel de antigos pontífices em autorizar explicitamente soberanos europeus a subjugar e escravizar “infiéis”.
✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp
Primeiro papa nascido nos Estados Unidos, Leão XIV, cuja história familiar inclui tanto pessoas escravizadas quanto proprietários de escravos, fez o pedido de desculpas em sua primeira encíclica, “Magnifica Humanitas” (“Humanidade Magnífica”), divulgada nesta segunda.
O documento trata dos desafios para proteger a humanidade em uma era de crescente dependência da inteligência artificial. Ao abordar o tema, o papa relacionou o tráfico transatlântico de escravizados a novas formas de escravidão e colonialismo impulsionadas pela revolução digital, como o trabalho não regulamentado usado na extração de minerais raros necessários para chips de IA.
Com isso, Leão XIV respondeu a décadas de pedidos de católicos negros dos Estados Unidos, ativistas e estudiosos para que a Santa Sé reconhecesse e reparasse seu próprio papel no comércio colonial de seres humanos.
“É impossível não sentir profunda tristeza ao contemplar o imenso sofrimento e humilhação suportados por tantos, em contraste com sua dignidade incomensurável como pessoas infinitamente amadas pelo Senhor”, escreveu o papa. “Por isso, em nome da Igreja, peço sinceramente perdão.”
Agora no g1
Séculos de legitimação da escravidão
O Vaticano sustenta que sempre defendeu a dignidade de todos os seres humanos como filhos de Deus. No entanto, uma série de decretos do século XV autorizou soberanos portugueses a conquistar territórios na África e nas Américas e escravizar não cristãos.
Em 1452, por exemplo, o papa Nicolau V publicou a bula papal "Dum Diversas', que concedia ao rei de Portugal e seus sucessores o direito de “invadir, conquistar, combater e subjugar” “sarracenos, pagãos e outros infiéis”.
O texto também autorizava os portugueses a reduzir essas pessoas à “escravidão perpétua”.
Essa bula e outro documento emitido três anos depois, o "Romanus Pontifex", serviram de base para a chamada Doutrina da Descoberta, teoria usada para legitimar a tomada colonial de terras na África e nas Américas.
As permissões dadas por Nicolau V foram confirmadas ou renovadas posteriormente pelos papas Calisto III, Sisto IV e Leão X.
Em 2023, o Vaticano repudiou formalmente a Doutrina da Descoberta, mas nunca anulou oficialmente as bulas papais em si. A Santa Sé afirma que um documento posterior, o Sublimis Deus, de 1537, reafirmou que povos indígenas não deveriam ser privados de liberdade, propriedades ou escravizados.
Igreja demorou a condenar a escravidão
Na encíclica, Leão XIV lembrou que seu antecessor de nome, o papa Leão XIII, foi o primeiro a condenar explicitamente a escravidão, em 1888 — quando vários países já haviam abolido a prática.
Antes disso, segundo o pontífice, até instituições da Igreja possuíam escravos.
Ao reconhecer o papel da própria Santa Sé e as bulas papais do século XV, Leão XIV escreveu:
“Já no início da era moderna, a Sé Apostólica de Roma, respondendo a pedidos de soberanos, interveio diversas vezes para regular e legitimar formas de subjugação e, em certos casos, inclusive a escravização de ‘infiéis’.”
O papa afirmou que não é possível julgar decisões do passado apenas pelos padrões atuais, mas disse que isso não diminui a demora da sociedade e da Igreja em denunciar a escravidão.
“Isso constitui uma ferida na memória cristã, da qual não podemos nos considerar desvinculados”, escreveu.
Leão XIV também afirmou que a Igreja precisa condenar com firmeza todas as formas de exploração ligadas à revolução tecnológica digital “se quisermos evitar a necessidade de pedir perdão novamente no futuro”.
Em 1985, o papa João Paulo II pediu perdão aos africanos pelo tráfico de escravizados praticado por cristãos.
g1/Arquivo
Histórico familiar e pedidos anteriores
Durante visita a Camarões, em 1985, o papa João Paulo II pediu perdão aos africanos pelo tráfico de escravizados praticado por cristãos, mas sem mencionar o papel direto dos papas.
Em 1992, durante visita à Ilha de Gorée, no Senegal — um dos maiores centros do tráfico de escravizados da África Ocidental — João Paulo II chamou a escravidão de “tragédia de uma civilização que se dizia cristã”.
Segundo pesquisa genealógica publicada por Henry Louis Gates Jr., 17 ancestrais americanos de Leão XIV eram negros e aparecem em registros oficiais como mulatos, negros, crioulos ou pessoas livres de cor. A árvore genealógica do papa inclui tanto pessoas escravizadas quanto proprietários de escravos.
No mês passado, durante visita a Angola, Leão XIV rezou em um santuário católico localizado em uma área que foi um importante centro do tráfico de africanos escravizados durante o domínio colonial português. Na ocasião, ele mencionou o “sofrimento e a grande dor” vividos pelos angolanos ao longo dos séculos, mas sem citar diretamente a escravidão.