Qual a origem da aliança entre EUA e Marrocos — e qual o papel dela na crise migratória de Ceuta
07/08/2026
(Foto: Reprodução) O rei Mohammed 6º do Marrocos rebatizou uma rodovia com o nome do presidente dos EUA, Donald J. Trump
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Desde um antigo tratado de amizade — assinado há mais de dois séculos — até a recente criação da rodovia Donald J. Trump no Saara, Marrocos e Estados Unidos sempre mantiveram uma relação especial.
O rei marroquino Mohammed 6º rebatizou esta semana, em homenagem ao presidente dos Estados Unidos, uma via de mais de mil quilômetros que atravessa o Saara Ocidental, em um aparente gesto de agradecimento pelo apoio de Trump à soberania de Rabat sobre o território em disputa (veja mais abaixo).
Isso ocorreu poucos dias depois de mais de 70 mil pessoas entrarem a partir do Marrocos na cidade espanhola de Ceuta — um incidente que deixou ao menos 140 mortos dos dois lados da fronteira e provocou uma grave crise migratória.
A reação do governo dos EUA a esse episódio deixou evidente sua proximidade com o reino alauíta — a dinastia do Marrocos.
Trump descreveu o ocorrido como uma "catástrofe", semelhante a "uma invasão de um país"; o Departamento de Estado responsabilizou as políticas migratórias do governo espanhol de Pedro Sánchez; e a Casa Branca culpou as "políticas globalistas de extrema esquerda".
Em nenhum momento os EUA questionaram o Marrocos, de onde teve origem a onda de pessoas que seguiu em direção a Ceuta.
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Dezenas de milhares de migrantes se concentraram no Marrocos, junto à fronteira com Ceuta, para cruzar para território espanhol no fim de julho
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Embora isso tenha surpreendido poucos, a posição de Washington gerou certa preocupação na Espanha, país-membro da Otan que abriga forças dos EUA nas bases militares de Rota e Morón.
O Marrocos não pertence à aliança atlântica de defesa, mas é um dos principais parceiros militares e de inteligência dos EUA.
Confira abaixo como Marrocos e EUA fortaleceram sua relação ao longo dos anos, quais benefícios ambos obtêm dela e como essa aliança está influenciando os acontecimentos atuais.
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Um bom começo
Apesar da distância geográfica e cultural, a relação entre EUA e Marrocos começou muito cedo — e de forma positiva.
Em 1776, os EUA constituíam-se como nação após declarar sua independência do Império Britânico, enquanto o Marrocos era um sultanato independente governado pela dinastia alauíta, a mesma que permanece hoje no trono.
Apenas um ano e meio após a emancipação dos EUA, o sultão Mohammed 3º autorizou os navios da nova nação a entrarem livremente nos portos marroquinos.
Rabat apresenta aquele decreto como o primeiro reconhecimento internacional dos EUA. No entanto, o Escritório do Historiador do Departamento de Estado dos EUA data o primeiro reconhecimento em 23 de junho de 1786, quando os dois países assinaram em Marrakech o Tratado de Paz e Amizade.
Para a jovem república norte-americana, isso era mais do que um mero gesto diplomático: a Marinha britânica já não protegia seus navios, que ficaram expostos a corsários do Marrocos, de Argel, de Túnis e de Trípoli, que capturavam embarcações e mantinham suas tripulações como reféns para exigir resgates.
O acordo garantiu a navegação pacífica e o acesso dos navios dos EUA aos portos marroquinos, além de abrir oportunidades comerciais e reforçar a legitimidade internacional do novo país.
"A localização geográfica do Marrocos, na entrada do Mediterrâneo, e seus vínculos com a Europa, a África e o mundo islâmico beneficiaram os EUA enquanto o país buscava reconhecimento e comércio em todo o mundo", disse à BBC News Mundo Timothy W. Kneeland, professor de História e Ciência Política da Universidade Nazareth, em Nova York.
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Mercado na cidade de Tânger no século 19
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O tratado foi renegociado em 1836 e continua em vigor.
"Como os marroquinos sempre gostam de lembrar, o tratado de 1786 continua sendo o acordo em vigor mais antigo da história dos EUA", afirma Sarah Yerkes, pesquisadora de Oriente Médio do Carnegie Endowment for International Peace e especialista em política externa dos EUA para o Oriente Médio e o Norte da África.
A continuidade do tratado não significou uma proximidade constante nas relações entre os dois países.
Quando o Marrocos foi dividido, em 1912, entre um protetorado francês e zonas sob controle espanhol, Washington inicialmente resistiu em reconhecer a nova ordem colonial, mas acabou fazendo isso em 1917.
Após a independência marroquina, em março de 1956, os EUA reconheceram imediatamente o novo Estado soberano e abriram sua embaixada em Rabat três meses depois.
Segurança, comércio e o Saara
Os EUA realizam no Marrocos o African Lion, seu maior exercício militar no norte da África
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A cooperação em segurança havia começado anos antes da independência do Marrocos.
Em 1950, quando o Marrocos ainda era um protetorado francês, Washington acertou com a França o uso e a ampliação de várias instalações aéreas no país.
Um quarto de século depois, os EUA deram outro respaldo ao seu aliado norte-africano.
Em novembro de 1975, enquanto o ditador espanhol Francisco Franco agonizava, Hassan 2º mobilizou cerca de 350 mil pessoas na Marcha Verde para pressionar a Espanha a abandonar sua colônia do Saara Ocidental, no oeste da África, em frente às Ilhas Canárias.
A Espanha acabou transferindo a administração do território para o Marrocos e a Mauritânia.
Washington defendia publicamente a neutralidade e uma solução negociada, mas documentos diplomáticos que perderam o sigilo revelam uma postura mais favorável a Rabat.
Henry Kissinger comunicou a Hassan 2º, em 1974, que, se estivesse em seu lugar, agiria da mesma maneira; e, em janeiro de 1976, reconheceu que os EUA "não colocaram muitos obstáculos" ao Marrocos no Saara.
Meses depois, um relatório diplomático já definia a posição dos EUA como "essencialmente pró-marroquina", segundo o Escritório do Historiador do Departamento de Estado.
Civis marroquinos carregam bandeiras nacionais, exemplares do Alcorão e retratos do rei Hassan 2º durante a Marcha Verde de novembro de 1975, com a qual Rabat pressionou a Espanha a abandonar o Saara Ocidental
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No entanto, segundo disse à BBC News Mundo a pesquisadora Sarah Yerkes, "foi depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA que a relação bilateral na área de segurança realmente tomou forma".
"Do ponto de vista geopolítico, o Marrocos tem sido um aliado firme dos EUA em sua luta contra o terrorismo global", explica, por sua vez, o professor Kneeland.
Em 2004, o governo de George W. Bush designou o reino norte-africano como "aliado preferencial extra-Otan", uma categoria que facilita o acesso a armamentos e à cooperação militar.
O Marrocos também sedia o African Lion, o maior exercício anual do Comando dos EUA para a África.
Os dois países treinam conjuntamente suas forças especiais e copresidem o grupo para a África da coalizão internacional contra o autodenominado Estado Islâmico, responsável por coordenar a assistência antiterrorismo no continente.
Entre 2021 e 2025, os EUA foram o principal fornecedor de grandes sistemas de armamentos para o Marrocos, respondendo por 60% de suas importações, seguidos por Israel, com 24%, e pela França, com 10%, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (Sipri).
Caça F-16 de fabricação norte-americana da Real Força Aérea do Marrocos
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No plano econômico, o atual acordo bilateral de livre comércio, em vigor desde 2006, foi o primeiro dos EUA com um país africano e eliminou numerosas barreiras comerciais.
Em 2025, o comércio de bens alcançou US$ 7,4 bilhões, quase oito vezes os US$ 927 milhões registrados em 2005, antes da entrada em vigor do acordo, com um expressivo superávit para os EUA.
Ainda assim, esse valor é considerado modesto para a economia norte-americana, que tem o Marrocos como seu 46º mercado de exportação.
No campo diplomático, o Marrocos obteve sua maior recompensa em 2020, quando, ao fim de seu primeiro mandato, Trump reconheceu a soberania marroquina sobre o Saara Ocidental como parte do acordo pelo qual o país norte-africano normalizou suas relações com Israel.
O Saara Ocidental é um território no sul do Marrocos disputado desde 1975 por Marrocos e pela Frente Polisário, movimento que defende a independência do povo sarauí. Marrocos controla a maior parte da região, enquanto a Polisário reivindica a criação de um Estado independente.
Washington mantém essa posição e considera a proposta de autonomia de Rabat —apresentada à ONU em 2007 e que prevê que o Saara Ocidental permaneça sob soberania marroquina, mas com amplos poderes de autogoverno para os habitantes locais — a única base para resolver o conflito.
"O Marrocos é o membro mais bem-sucedido dos Acordos de Abraão. A normalização com Israel resistiu ao conflito em Gaza e agora é bastante sólida", afirma a acadêmica Yerkes.
O triângulo EUA-Marrocos-Espanha
A crise de Ceuta gerou tensões no triângulo formado por EUA, Marrocos e Espanha.
O episódio colocou em evidência a aliança entre EUA e Marrocos, em um momento em que surgem sérias dúvidas sobre as relações da Espanha com seu vizinho africano e com seu parceiro norte-americano na Otan.
Madri é um importante aliado militar de Washington e, ao mesmo tempo, depende da cooperação marroquina para administrar sua fronteira no norte da África.
No entanto, ambas as alianças atravessam momentos de desgaste.
Embora o governo de Pedro Sánchez tenha atribuído a entrada massiva em Ceuta às máfias de tráfico de pessoas e às redes sociais, chegando inclusive a agradecer a colaboração do governo marroquino, especialistas, políticos e meios de comunicação espanhóis acusaram o reino alauíta de provocar ou, ao menos, permitir o episódio.
Já o governo Trump criticou duramente a Espanha por divergir sobre o limite de gastos militares na Otan e por vetar o uso das bases de Rota e Morón para suas operações no Irã.
Essas divergências ficaram especialmente evidentes durante a crise de Ceuta.
Mais de 70 mil pessoas cruzaram do Marrocos para a cidade espanhola de Ceuta, provocando uma crise humanitária e alterando a diplomacia regional
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Embora Washington não tenha apoiado explicitamente a versão marroquina — de que a invasão resultou de boatos espalhados nas redes sociais, mal-entendidos sobre decisões judiciais espanholas e da ação de máfias de tráfico humano —, também não pediu explicações a Rabat nem repercutiu as acusações sobre uma possível flexibilização deliberada dos controles de fronteira.
Pelo contrário, Trump apresentou o episódio como consequência das políticas migratórias espanholas, em um claro ataque ao governo de Sánchez.
"Não acredito que Washington veja os acontecimentos de Ceuta como algo impulsionado pelo Marrocos. A Casa Branca tem sido muito mais crítica à Espanha e ao que considera sua má gestão da fronteira, que permitiu que a crise ocorresse", interpreta a pesquisadora Yerkes.
A reação de Washington, de qualquer forma, confirma a solidez de sua aliança com Rabat, em contraste com os atritos com seu aliado espanhol na Otan.
Além disso, ressaltam especialistas, o Marrocos pode ganhar mais valor para os EUA como parceiro em matéria de segurança e logística depois que a Espanha vetou o uso de suas bases e de seu espaço aéreo para os ataques contra o Irã.
Por ocasião da Festa do Trono, celebração nacional que, em 30 de julho, marcou a comemoração da ascensão de Mohammed 6º ao trono em 1999, Trump deixou clara a direção da aliança em uma mensagem dirigida ao monarca.
"Este ano celebramos 250 anos da história dos EUA e de uma amizade duradoura com o Marrocos, um vínculo forjado na confiança e no respeito mútuo", afirmou.
Após mencionar o Saara Ocidental como território marroquino, em um aparente aceno ao seu parceiro, o presidente dos EUA expressou o desejo de que a cooperação em todos os setores se prolongue "pelos próximos 250 anos".
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