Trump diz estar disposto a sacrificar a Otan para conseguir a Groenlândia e que 'não precisa' do direito internacional
09/01/2026
(Foto: Reprodução) Europa prepara plano para caso de invasão dos EUA à Groenlândia
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse querer integrar a Groenlândia aos EUA mesmo que isso coloque em risco a existência da Otan e que "não precisa" do direito internacional. A fala ocorreu em uma entrevista ao jornal norte-americano "The New York Times".
A fala de Trump é mais um capítulo da sua investida para controlar a ilha do Ártico, que pertence à Dinamarca, e escala ainda mais as tensões com a Europa. O presidente norte-americano quer adquirir a Groenlândia "porque é isso que eu sinto ser psicologicamente necessário para o sucesso", disse ao "New York Times".
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A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, afirmou nesta semana que um ataque dos EUA à Groenlândia significaria o fim da Aliança Militar do Atlântico Norte —formada após a Guerra Fria e fundamental para a defesa europeia. Especialistas avaliam que a investida de Trump já está impactando a coesão da Otan.
A Europa, inclusive, está preparando um plano de ação para caso Trump materialize suas ameaças de tomar a Groenlândia. Ainda não se sabe detalhes do plano, além de que ele inclui a França e a Alemanha —faz sentido que a Dinamarca, por ser responsável pela ilha, esteja envolvida.
A Casa Branca afirmou nesta semana que Trump quer comprar a Groenlândia, mas que não descarta o uso da força militar caso julgue necessário. Segundo a agência de notícias Reuters, o governo Trump está considerando oferecer até US$ 100 mil (cerca de R$ 540 mil) para cada habitante da Groenlândia que apoie a anexação da ilha pelos EUA. (Leia mais abaixo)
O presidente dos EUA, Donald Trump, em discurso para republicanos da câmara dos EUA
Kevin Lamarque/Reuters
Trump também afirmou ao jornal norte-americano acreditar que seus poderes como presidente dos EUA "se limitam apenas à sua própria moralidade" e que ele "não precisa" do direito internacional.
Questionado pelos repórteres se ele acreditava haver algum freio para seus poderes em escala global, ele respondeu: "Sim, há uma coisa. Minha própria moralidade. Minha própria mente. É a única coisa que pode me deter". "Não preciso do direito internacional (...) Não estou querendo prejudicar ninguém", completou o presidente dos EUA, segundo o NYT.
Na sequência, ele foi pressionado pelos repórteres sobre essa fala, segundo o jornal. Ele disse, então, que os funcionários de seu governo precisam respeitar o direito internacional, mas fez uma ressalva: "Depende de qual é a sua definição de direito internacional".
Essa fala de Trump descartando o direito internacional, regulamentado por instituições multilaterais como a ONU e que rege o mundo pós-2ª Guerra Mundial, encaixa com a interpretação de uma nova ordem mundial que, segundo especialistas ouvidos pelo g1, está se formando. Nessa nova ordem, bipolar com EUA e China à frente, essas potências econômicas têm demonstrado a intenção de expandir seus territórios por meio de ações concretas.
Trump quer comprar Groenlândia, diz Casa Branca
Donald Trump Jr. chegou há poucos dias a Nuuk, na Groenlândia
Emil Stach/Ritzau Scanpix/via REUTERS
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, considera fazer uma oferta para comprar a Groenlândia, informou a Casa Branca nesta quarta-feira (7). A iniciativa ocorre apesar de a população da ilha afirmar que o território não está à venda.
Trump também se recusa a descartar o uso da força para assumir o controle da ilha, considerada estratégica no Ártico. As declarações causaram reação negativa na Dinamarca e em outros aliados europeus dos Estados Unidos.
Após pedido da Dinamarca, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, disse que vai se reunir na próxima semana com representantes do país.
“Nada sobre a Groenlândia sem a Groenlândia. Vamos participar. Pedimos uma reunião”, afirmou a ministra Vivian Motzfeldt à TV pública local.
A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que Trump discute “ativamente” com a equipe a possibilidade de compra da Groenlândia, que tem área aproximada à do Alasca, maior estado americano.
Segundo ela, o presidente avalia que a medida serviria para conter a influência da Rússia e da China no Ártico. Leavitt afirmou que a opção preferencial de Trump é a diplomacia, mas não descartou o uso da força.
O presidente da Câmara dos Representantes, o republicano Mike Johnson, disse não ter conhecimento de planos de envio de tropas à Groenlândia. Segundo ele, não há discussões sobre ação militar, e o foco estaria em canais diplomáticos.
Johnson afirmou, no entanto, que não foi informado previamente sobre o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, que resultou na captura de Nicolás Maduro. Desde então, Trump fez ameaças de intervenção em Cuba, Groenlândia, Irã, México e Colômbia.
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Foco em 'verdadeiras ameaças'
O senador republicano Thom Tillis criticou as declarações do presidente, em nota conjunta com a democrata Jeanne Shaheen, principal representante do partido no Comitê de Relações Exteriores do Senado.
"Quando Dinamarca e Groenlândia deixam claro que a ilha não está à venda, os Estados Unidos devem cumprir suas obrigações e respeitar a soberania e integridade territorial do reino da Dinamarca", declararam os políticos.
"Devemos nos manter focados nas verdadeiras ameaças e trabalhar com nossos aliados, não contra eles, para fortalecer nossa segurança compartilhada."
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, reforçou que a ilha não está à venda e que somente os seus 57 mil habitantes podem decidir o futuro do território. A Groenlândia tem status semiautônomo, mas permanece sob soberania da Dinamarca.
Na segunda-feira (7), a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou que um ataque militar de um país da Otan contra outro colocaria em risco a aliança e o sistema de segurança criado após a Segunda Guerra Mundial.
A Dinamarca é membro fundador da Otan e aliada histórica dos Estados Unidos. O país participou do envio de tropas para apoiar a invasão americana ao Iraque, em 2003.
Trump, por sua vez, tem feito críticas à Otan. O presidente afirmou que a aliança beneficia países menores às custas da segurança americana.
"Sempre estaremos ao lado da Otan, embora eles não estejam ao nosso lado", publicou o presidente na rede Truth Social.
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