Zelensky diz que eleições em tempos de guerra dividiriam a Ucrânia e seriam um 'tsunami' para o país
23/08/2026
(Foto: Reprodução) Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, durante discurso na cúpula da Otan em 7 de julho de 2026.
REUTERS/Yves Herman
O presidente da Ucrânia, Volodimir Zelensky, afirmou neste sábado (22) que realizar eleições enquanto o país enfrenta a invasão russa seria muito perigoso e poderia dividir a sociedade.
A declaração é uma resposta à proposta feita nesta semana pelo ex-ministro da Defesa Mykhailo Fedorov, que defendeu a realização do pleito ainda durante o conflito, segundo reportagem da AFP.
A Ucrânia suspendeu as eleições por causa da lei marcial, medida que conta com amplo apoio da população para priorizar o esforço de guerra contra a Rússia.
"Acredito que, em uma guerra como esta, eleições, como tais, representam um enorme risco. Eleições neste momento são um tsunami para o país que vai dividir a Ucrânia", disse Zelensky durante um encontro com jornalistas, o primeiro desse tipo após meses de crises políticas.
"Se quisermos destruir o país, então podemos seguir na direção de eleições em tempos de guerra", acrescentou.
Conforme a AFP, o debate ganhou força após a demissão de Fedorov, em julho, episódio que desencadeou protestos inéditos desde o início da invasão russa, em 2022. Conhecido por defender a inovação tecnológica e promover reformas profundas nas Forças Armadas, o ex-ministro surpreendeu ao pedir a convocação de eleições, mas sem apresentar um plano de como elas seriam realizadas.
Ataques entre Rússia e Ucrânia deixam mais de 20 mortos
Especialistas apontam diversos obstáculos para a realização do pleito, como a votação de soldados na linha de frente, de milhões de refugiados ucranianos e de moradores dos territórios ocupados, além do risco de campanhas de desinformação promovidas pela Rússia.
Segundo pesquisa do Instituto de Sociologia de Kiev, apenas 15% dos ucranianos acreditam que as eleições deveriam ocorrer antes do fim da guerra.
Durante o encontro, a AFP registrou que Zelensky também fez críticas diretas a Fedorov. "Acredito que ele está seguindo por conta própria — ou está sendo empurrado — para coisas erradas", afirmou.
Fedorov ganhou popularidade ao modernizar as Forças Armadas e ampliar o uso de drones, estratégia que provocou perdas importantes às tropas russas. No entanto, entrou em conflito com o comando militar por causa de sua abordagem considerada menos tradicional.
Após sua destituição, parte da opinião pública passou a exigir a saída do comandante-em-chefe Oleksandr Sirski, que acabou sendo demitido em uma tentativa de conter as manifestações.
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, em foto de 16 de abril de 2026
Piroschka van de Wouw/Reuters
Zelensky reconheceu o direito da população de protestar, mas alertou contra atitudes "desrespeitosas" em relação aos militares.
"Desde quando o marketing passou a ter mais peso do que as pessoas que estão dando suas vidas?", questionou.
Ao encerrar a entrevista, o presidente afirmou que seu principal objetivo é evitar uma divisão interna. "A sociedade e os soldados não devem se dividir. [...] Precisamos reconhecer que o risco existe: que possa haver um movimento nessa direção, de situações perigosas", declarou.